País Basco: PNV defende um referendo

FERNANDO BARCIELA (Correspondente em Madrid)

Diário de Notícias, Lisboa, 2-10-01


As palavras dos dois líderes bascos foram recebidas pelos milhares de assistentes - quase todos militantes do PNV - com fortes aplausos e gritos de "independentzia", estes proferidos básicamente pelos integrantes das Juventudes do partido. O acto, ao que assistiram como convidados membros de partidos nacionalistas da Catalunha e da Galiza, foi uma autêntica festa de exaltação nacionalista, favorecida pelos óptimos resultados do PNV nas eleições de Maio deste ano.

Num tom que evidenciava certa irritação pelo recente fracasso do debate sobre "pacificação" levado a cabo no Parlamento vasco (as posições de nacionalistas e espanholistas são antagónicas), Ibarretxe acusou o presidente do Governo espanhol, José Maria Aznar, de ser responsável, com o seu "cego imobilismo", pela falta de soluções para o problema basco.

Como se sabe, a grande diferença que separa nacionalistas e espanholistas é que, enquanto os primeiros consideram que o problema da violência na regiâo só poderá solucionar-se através de um processo de negociações, os segundos afirmam que não há negociação possível e que o único caminho é derrotar policialmente a ETA.

"Nada nem ninguém", disse Ibarretxe no seu discurso, "se interporá entre os bascos e a paz. Estamos dispostos a acabar com a ETA mas também a solucionar o problema basco através do diálogo". E aí chegou a principal mensagem: "se a ETA não deixa de matar, se desde Madrid não se respeitam os desejos de autogoverno do País Basco e se fracassa no diálogo entre os partidos, não teremos outro remédio senão consultar a sociedade basca".

Ibarretexe afirmou não sentir qualquer receio em explicitar essa consulta, mas não deu prazos nem datas para ela. Limitou-se a frisar a intenção de fazê-lo: "temos vontade e capacidade para tomar as nossas próprias decisões".

Curiosamente, a revista britânica The Economist proporcionou recentemente argumentos aos líderes nacionalistas bascos. Num artigo sobre José Maria Aznar, publicado na sua edição de 15 de Setembro, e no qual glosava positivamente a sua figura, a sisuda publicação criticava a política de Aznar na região e manifestava a sua opinião de que Madrid deve permitir ali um referendo. Durante o dia de ontem sucederam-se as reacções ao discurso do líder basco. Javier Arenas, secretário-geral do PP disse não entender como um governante democrático como Ibarretexe pode "estar pensando desrespeitar as leis que devia cumprir". Mariano Rajoy, vice-presidente do Governo e ministro do Interior, afirmou que o seu Governo não aceitaria tal referendo e "fará tudo o que está nas suas mãos para que se cumpra a lei". Também a Eusko Alkartasuna (EA), a formação política nacionalista que governa com o PNV no País Basco, reclamou que a próxima reforma institucional da UE garanta a representação das nações sem Estado ao mesmo nível que os Estados actuais.