Ironias da História

Alfredo Barroso

 

Lisboa, EXPRESSO, 23-09-00

 

TORNA-SE cada vez menos estimulante e cada vez mais desinteressante assistir a um debate político de fundo na

Assembleia da República entre o Governo e o principal partido da oposição. Não porque a fluidez do discurso e a capacidade retórica dos principais interlocutores seja pobre ou esteja ausente do hemiciclo, mas sim porque quase nada de essencial os divide e tudo parece resumir-se, afinal, a um conflito tecnocrático sobre critérios de gestão e erros de previsão. Parece evidente que os dois principais partidos políticos portugueses se renderam definitivamente ao chamado«pensamento único»e apenas divergem quanto à sua interpretação, consoante a oportunidade, a conjuntura e o apetite pelo poder.

 

Nada de essencial é questionado: a doutrina neo-liberal, as sucessivas privatizações, os efeitos da globalização, o modelo de crescimento, o rumo da União Europeia, o futuro da moeda única, a dissolução da soberania nacional, a total dependência da economia portuguesa em relação ao exterior e a crescente redução da margem de manobra do Governo para controlar - e, muito menos, para definir - os destinos do país, a curto, a médio e a longo prazos. As divergências resumem-se a mais ou menos diálogo, a mais ou menos solidariedade social, a mais ou menos privatizações, a mais ou menos liberalização dos mercados, a mais ou menos capacidade de gestão, a mais ou menos betão, a mais ou menos computadores nas escolas, a mais ou menos filas de espera nos hospitais e a mais ou menos polícias.

 

Tudo isto é importante, mas não toca no essencial, porque nem o PS nem o PSD desejam tocar no essencial. A palavra-chave para Compreender este comportamento político é o verbo «modernizar». E o que hoje se discute é se o «guterrismo» consegue ser ainda mais moderno do que o«cavaquismo».O PSD acha que não, o PS acha que sim. Ora, ser moderno, nos tempos que correm, é, sobretudo, privatizar. E não sei se o «guterrismo» já conseguiu privatiza rmais, em cinco anos de governo, do que o«cavaquismo»em dez anos de governo. Também não sei, por isso mesmo, quem mais contribuiu para o desmantelamento do Estado e para o recrudescimento do corporativismo, incitando à concentração das riquezas nas mãos de grandes grupos económicos e financeiros, portugueses e estrangeiros.

 

Há cerca de duas semanas, o semanário francês «Marianne» fez uma caricatura cruel dos que sustentam, sem pestanejar, que ser «moderno» é privatizar cada vez mais(mesmo os genes), recordando que o sistema de  privatização generalizada era o que existia na Idade Média. Nessa época feudal (e, pelos vistos, tão  moderna»),que muitos historiadores insistem em qualificar como Idade das Trevas, tudo era privado: a moeda, a justiça, as prisões, os exércitos, as polícias, os transportes, a energia, os recursos naturais, os impostos. Até as populações eram propriedade privada dos senhores feudais (para já nem falar do tão famoso e infame«direito de pernada»).Ou seja, nestes como em outros domínios da vida  contemporânea, parece que o cúmulo da«modernidade»é, afinal, o retorno à Idade Média!

 

Outra ironia da história é a multiplicação das fusões e concentrações de empresas e a constituição de gigantescos

conglomerados e monopólios privados, hoje considerados como factores de«modernização». Há 20 anos,  dominava a palavra de ordem «small is beautyful» pensava-se exactamente o contrário, ou seja, que os grandes conglomerados privados (e, acessoriamente, os monopólios públicos),eram anti-concorrenciais, por serem excessivamente grandes, bastante pesados e demasiado lentos. Tanto o velho «trust» à americana como o velho «goum» à soviética eram contestados e execrados pelos liberais (de esquerda e de direita) de todos os países. Hoje, porém, os neo-liberais (de esquerda e de direita) de todos os países unem-se para aplaudir fusões e concentrações e glorificar os novos mastodontes que dominam o mercado e governam o mundo. Neo-liberais ou neo-marxistas?!

 

Já nada me surpreende. O advento dos tempos modernos caracterizou-se pela constituição de Estados nacionais sobre as ruínas das velhas províncias feudais, submetidas a uma multiplicidade de príncipes sob a égide do virtual «Sacro Império romano-germânico». Hoje, a União Europeia pretende fazer o percurso inverso, erguendo a Europa das Regiões sobre as ruínas dos Estados nacionais. Decididamente, o feudalismo é pós-moderno!