A vingança do chinês

  Manuel Villaverde Cabral

                      Lisboa, Diário de Notícias, 4 Fevereiro 2000



 Ao contrário do que diz o ditado, nem sempre a vingança é servida fria e devagar. Com efeito, ainda
 Portugal mal tinha abandonado Macau - entre lágrimas de emoção, bandeiras enroladas e cânticos
 patrióticos - e já a "vingança do chinês" se exercia rápida e a quente. É evidente que o ataque desferido
 pelas autoridades chinesas não visa apenas o último governador português; através dele, é também
 visada a antiga potência colonial. Que a "vingança do chinês" nos sirva de lição!

 São três, para já, os comentários que se impõem. O mais óbvio é o recado que a China entendeu
 mandar às autoridades portuguesas. A partir do minuto em que estas lhe entregaram a administração de
 Macau, Portugal deixou de lá ter qualquer "privilégio histórico" - antes pelo contrário! Ao mesmo
 tempo, tornou-se evidente que o slogan "Um país, dois sistemas", que as autoridades chinesas talvez
 tenham interesse em aplicar em Hong Kong, não passa, no caso de Macau, de uma treta para enganar
 quem quer ser enganado!

 Do pouco que a China revela ao mundo, temos obrigação de saber que se trata de uma potência
 orgulhosa da sua independência e da sua civilização. Sabemos também que o seu actual regime - uma
 férrea ditadura político-militar apoiada em redes de poder tradicionais - é de um calculismo total na
 gestão dos seus interesses internacionais. E sabemos ainda que esse regime brutal beneficia da cínica
 tolerância que o seu enorme mercado e o seu poderoso exército inspiram às grandes potências
 ocidentais.

 Sendo assim, o segundo comentário sobre o ataque das autoridades chinesas é também óbvio. Com
 efeito, não é difícil concluir que Portugal não só não pesa nos cálculos do regime chinês, pois não tem
 dimensão política nem económica internacional, como a antiga potência colonial possui o condão de
 irritar o orgulho da China com as suas pretensões a manter alguma espécie de influência em Macau.

 Ao darem a entender que a tal Fundação Jorge Álvares (entre parêntesis, a China deve ter apreciado
 especialmente a ideia de baptizarem a fundação com o nome do "descobridor" de Macau!) só queria
 aproveitar os últimos momentos da nossa administração para canalizar alguns lucros do jogo para
 Portugal, as autoridades chinesas lançaram, deliberadamente, a suspeição sobre as veleidades
 portuguesas de mantermos uma "presença cultural no Oriente".

 Esta dura lição que a China acaba de nos infligir, dias depois da "festa de despedida", era tanto mais
 desnecessária quanto a administração portuguesa sabia perfeitamente o que as autoridades chinesas
 pensavam da Fundação Oriente e de idênticas veleidades culturais. Portugal tinha, aliás, obrigação de
 se lembrar dos enormes obstáculos que a Índia sempre levantou, também, às nossas tentativas para
 assegurar uma "presença no Oriente". Estou convencido que todos estes reveses provêm, em boa
 parte, da estúpida tendência das elites portuguesas para levarem a sério a sua própria
 ideologia colonial, isto é, para se convencerem de que grandes civilizações como a Índia e a
 China vêem a passagem de Portugal pelo Oriente como esse benigno "encontro de culturas"
 com que as nossas elites julgam esconder a realidade do colonialismo sob o manto fantasioso
 do lusotropicalismo. Só que, para os antigos colonizados, a história é outra e não é para
 festejar.

 O terceiro comentário que este episódio merece não é mais lisonjeiro para a tal fundação. Com efeito,
 esta história mal contada volta a levantar a dúvida que a nossa permanência em Macau nunca
 esclareceu: o que andou Portugal a fazer por lá durante séculos? Depois de falharem, rapidamente, as
 tentativas do proselitismo católico para converter a população local (como se a sociedade chinesa
 tivesse as estruturas das sociedades africanas ou brasileiras!), o que fizeram os portugueses em Macau,
 na realidade, senão sacudir a "árvore das patacas"?

 No modesto entender de alguém que pouco conhece do Oriente, como é o meu caso, tudo leva a crer
 que as autoridades chinesas não se limitaram a dizer, com este processo levantado à administração
 portuguesa, que os recursos de Macau pertencem agora à China, inclusive os recursos do jogo e da
 prostituição. É evidente que também quiseram apontar o dedo à chaga de que a presença portuguesa
 no território nunca se libertou e que continua a infectar não só as relações com a China como a nossa
 própria vida política.

 Com efeito, por mais que se fale em defender a herança cultural portuguesa no Oriente, os promotores
 da funesta fundação tinham obrigação de saber que Macau não se livra da fama de ter sido um bordel
 onde era fácil extrair recursos privados sobre os quais o Estado português nunca exerceu qualquer
 controlo. E tambéém deviam ser sensíveis ao facto de a maioria das pessoas pensar que essa ideia de
 "reciclar" o dinheiro dos casinos para actividades culturais é, no mínimo, bizarra. Por fim, sabendo-se o
 que a opinião pública pensa da influência que as redes de interesses criadas em Macau exercem na
 nossa vida política e económica, teria sido prudente que a administração portuguesa se abstivesse da
 tentação de sacudir pela última vez a "árvore das patacas".
 

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