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MÉTODOS DE DATAÇÃO


Há apenas trinta e cinco anos que a fisica nuclear e outras disciplinas cientificas contribuiram com as técnicas que tornam possívets as datações absolutas. Anteriormente, os paleontólogos e os estudiosos da Pré-História dispunham apenas de datações relativas. 0 princípio destas datações era simples: toda a camada rica em fósseis era mais recente do que aquela que se encontrava por baixo dela, e mais antiga do que aquela que se encontrava por cima. A este método impreciso, juntavam-se comparações entre fósseis encontrados em estações arqueológicas diferentes ou em regiões por vezes bastante afastadas entre si. Por definição, os fósseis que apresentam as mesmas características anatómicas pertenciam a animais ou a Hominídeos que viveram na mesma época.

As datações absolutas nem sempre são possíveis, pelo que ainda hoje se recorre às comparações. É por essa razão que as estações arqueologicas de Australopitecos e de Homo habilis da Africa do Sul estão datadas por comparação com os fósseis encontrados na Africa Oriental — fósseis estes que beneficiam das condições indispensáveis para que se proceda a datações absolutas.


 

Existem diversos métodos de datação absoluta que permitem, com uma margem de erro aceitável, determinar a idade de rochas, de objectos de cerâmica ou de qualquer material que contenha carbono. Mas nenhum método é universal, uma vez que cada um se aplica a materiais específicos e a um período bem definido do passado.
A termoluminescência é uma técnica de datação baseada no facto de um mineral cristalino (quartzo, feldspato, etc.) aquecido a 400 °C emitir luz, e de a quantidade de luz emitida ser função do tempo durante o qual esse material esteve submetido a uma irradiação produzida por elementos radioactivos naturais, presentes no seu meio ambiente, e, em menor escala, aos raios cósmicos (solares ou galácticos). Esta técnica é utilizável em determinadas rochas e sobre terras cozidas ou cerâmicas, já que tanto umas como outras contêm quartzo, feldspato, etc. No caso das cerâmicas. a cozedura de fabrico apagou todos os vestígios das irradiações anteriores, mas a sua datação por termoluminescência só pode fazer-se depois de medida a radioactividade natural do mineral utilizado como matéria-prima, bem como a radioactividade do solo no qual esteve enterrado o objecto estudado. A termoluminescência apresenta a grande vantagem de poder ser medida a partir de um fragmento minúsculo (50 miligramas). Permite datar rochas ou objectos que tenham uma idade compreendida entre a época actual e algumas centenas de milhares de anos.

Os aminoácidos, que entram na composição de toda a matéria viva, possuem uma particularidade essencial que permite datar os organismos que tenham vivido desde os tempos actuais ate há 300 000 ou 500 000 anos. Uma solução de aminoácidos extraídos de um organismo vivo desvia a luz polarizada para a esquerda. Depois da morte, as estruturas moleculares dos aminoácidos transformam-se de tal forma que uma solução desses ácidos vai desviando cada vez menos para a esquerda a luz polarizada. A medição do desvio resultante permite datar o organismo em questão, desde que a temperatura se tenha mantido constante depois da morte. Por outro lado, existem vários métodos de datação baseados na medição da radioactividade.

• 0 carbono 14 permite efectuar datações porque a relação carbono 14 radioactivo/carbono 12 estável é constante na matéria viva. Depois da morte dessa matéria, o carbono 14 desintegra-se, desaparecendo metade do carbono 14 aproximadamente de 5000 em 5000 anos, de forma que, 30 000 anos depois da morte, o carbono 14 já não é mensurável, não podendo servir, portanto, para datar materiais carbonados mais antigos.

• 0 urânio 238-tório 230. A partir do momento da sua formação, os carbonatos marinhos (conchas e corais) contêm vestígios de urânio 238 radioactivo. Este gera o tório 230, igualmente radioactivo, e cuja actividade aumenta com o tempo, tendendo a alcançar a do urânio 238. A medição da relação destas duas actividades permite datar a formação do carbonato. No entanto, a diferença da actividade entre os dois elementos deixa de ser mensurável a partir de 300 000 anos, pelo que não se podem datar carbonatos marinhos anteriores a essa data.

O potássio-árgon. 0 potássio é um dos elementos constitutivos e primitivos da Terra. 0 seu isótopo radioactivo, o potássio 40, dá origem a um gás estável, o árgon 40, que se acumula nas rochas. Quando, no curso de um processo vulcânico, uma rocha entra em fusão, perde gás e, em consequência, perde o seu árgon. Aquando do seu arrefecimento formam-se cristais, que, inicialmente, não possuem (ainda) árgon, mas apenas potássio 40 que começa, obviamente, a "refabricar" árgon 40. A medição da relação entre o árgon 40 e o potássio 40 permitirá, então, determinar a data da solidificação da rocha vulcânica. Enquanto o carbono 14 não permite medir a idade de objectos com mais de 30 000 anos, o potássio-árgon é apenas correntemente utilizado para datar rochas com mais de 1 milhão de anos.
 
 

Os métodos de datação absoluta estão em progresso constante, tanto em diversidade como em precisão. Jean Piveteau, paleontólogo, apresentou um novo método de datação directa, por espectometria gama, aplicável sobretudo a ossadas (e também a estalactites e estalagmites) com idade compreendida entre alguns milhares de anos e cerca de 350 000 anos. Este método apresenta a vantagem capital de não destruir a peça a datar. Foi aperfeiçoado no Centro de Radioactividades Fracas (dependente do C. N. R. S. e do Comissariado da Energia Atómica) por Yuji Yokoyama e Huu—Van Nguyen, respectivamente director de investigação e engenheiro no C.N. R. S.

No momento da sua formação, os ossos contêm entre 10 e 100 partes por milhão de urânio radioactivo (99,7 por cento de urânio 238 e 0,3 por cento de urânio 235). Entre os descendentes do urânio 238, encontra-se o tório 230 (anteriormente designado iónio), também ele radioactivo. Com o passar do tempo, o tório 230 aumenta e o urânio 238 diminui. A medição da actual actividade respectiva destes dois elementos permite determinar a idade da amostra. Desde há alguns anos que a actividade era determinada pela medição dos raios alfa emitidos pelo urânio 238 e pelo tório 230. A originalidade do método de Yokoyarna e Nguyen consiste no facto de se medir a irradiacão gama emitida por ambos os elementos.

A medição das irradiações gama é muito delicada. Todos os elementos radioactivos resultantes do urânio 238 (chumbo 210, urânio 234, chumbo 214, tório 234 e, naturalmente, tório 230) emitem irradiações gama de energias muito próximas. Por outro lado, estas irradiações têm intensidades e energias muito fracas, razão pela qual é necessário empregar um detector dotado de uma grande sensibilidade e de um grande poder de resolução. Depois de repetidos ensaios, Yokoyama e Nguyen escolheram um detector de germânio de alta pureza.

0 ensaio, que foi objecto duma apresentação na Academia das Ciências, teve lugar entre Novembro de 1980 e Janeiro de 1981 sobre o crânio frontal do Homo erectus encontrado no ano de 1971, em Tautavel (Pirenéus Orientais), por Henry de Lumley, actualmente professor no Museu Nacional de História Natural de Paris. Trata-se, portanto, de um "objecto" de forma irregular que emite irradiações gama em todas as direcções. Ao ser colocado sobre o detector, este apenas recebe uma parte dos raios gama. Para avaliar a parte detectada, foi feito um molde muito exacto do crânio, utilizando-se, para o efeito, uma mistura de gesso e de mineral de urânio-padrão. Dado que se conhecia a quantidade de urânio, foi possível calcular a proporção de irradiação gama que chegava ao detector -- em particular aquela que é emitida pelo tório 230 --, e depois aplicar estes cálculos ao crânio verdadeiro.

Dois número podem dar uma ideia da delicadeza das medições e dos cálculos: o crânio de Tautavel pesa 425 gramas; a quantidade de tório 230 que ele contém é da ordem do milionésimo de grama.

Mas o crânio de Tautavel não se adapta bem a este método, pois para além dos 350 000 anos, a relação da actividade tório/urânio 238 encontra-se perto dos 100 por cento, não permitindo, portanto, que se façam apreciações. Todavia, duas determinações de datas efectuadas por Yokoyama e Nguyen atribuíram ao crânio uma idade superior a 240 000 anos, no caso da primeira, e a 300 000, no caso da segunda. Paralelamente, com base na fauna associada e em outros métodos físicos e bioquímicos, a idade do homem de Tautavel foi estimada em 450 000 anos. Contudo, esta avaliação era contestável, e sabe-se que a sua idade é superior aos 200 000 anos que tinham incialmente sido atribuídos ao homem de Tautavel.

Na estação pré-histórica de Fond-Brûlé (em Lorrain, Martinica), foi experimentado pela primeira vez em 1978 um novo método de datação por gama-termoluminescência. Este método foi concebido e testado pelo Centro da Investigação Interdisciplinar de Arqueologia Analítica da Universidade de Bordéus-III, sob a direcção de Max Schvoerer, professor de Física Atómica e Sólidos, aplicada à arqueologia.

Desde há 15 anos que se datam as cerâmicas pelo método da termoluminescência. Na verdade, todas as pastas de cerâmica contêm cristais de quartzo, de feldspato, etc. Mas a rede cristalina de cada um destes minerais nunca é perfeita, já que existem lacunas nos cristais. Nessas lacunas encontram-se presos os electrões arrancados aos átomos circundantes pelas partículas alfa e beta, ou pelos raios gama emitidos pelos urânio 238, o tório 2232 e o potássio 40, três elementos radioactivos (ou radioelementos), sempre presentes sob forma de vestígios em todos os minerais.

Com os passar do tempo, o número de electrões presos nas lacunas aumenta em função da radioactividade própria a cada um desses três elementos e da quantidade de cada elemento que esteja presente no mineral original e nos minerais circundantes.

Quando um mineral cristalino é aquecido a uma temperatura suficientemente alta (pelo menos a 400 º C), e durante tempo suficiente, os electrões presos recebem energia suficiente para sair das lacunas. Diz-se então que esta espécie de relógio atómico regressou a zero. Após esta "cozedura", as lacunas esvaziadas do seu depósito anterior de electrões recomeçam a encher-se com uma nova reserva de electrões, os quais aumentam em função do tempo decorrido a partir do momento em que o relógio atómico regressou a zero.

A termoluminescência mede este tempo graças ao facto de a saída dos electrões das suas armadilhas ser acompanhada por uma muito fraca emissão de luz. Com os meios técnicos actuais, pode determinar-se a intensidade desta luz, permitindo medir o número de electrões presos e, portanto, o tempo que decorreu desde que as lacunas começaram a encher-se de novo.

O principio da termoluminescência é relativamente simples, mas a aplicação do método é uma operação muito delicada.
• Cada rocha tem uma composição que varia de acordo com a sua origem geográfica. Assim, embora cada uma contenha teores em urânio 238, tório 232 e potássio 40 que são próprios de cada rocha, cada um desses três radioelementos emite doses específicas de partículas alfa e beta ou raios gama. Daí que seja necessário aferir em laboratório o material cristalino utilizado para o fabrico da cerâmica.

• Não se podem negligenciar as radiações provenientes dos raios cósmicos que bombardeiam incessantemente a superfície da Terra. Mas esta irradiação é fraca (da ordem dos 2 por cento) e pode ser medida com bastante facilidade.

• Por último, é necessário conhecer com precisão a radioactividade natural da camada arqueológica onde a cerâmica a datar permaneceu enterrada durante um período de tempo mais ou menos longo.
Esta última determinação é difícil, mas a gama-termoluminescência simplifica-a. Com efeito, as partículas alfa e beta e a irradiação gama têm poderes de penetração muito diferentes. A partícula alfa não vai além dos 20 mícrons adentro da superfície sobre que incide, ao passo que a partícula beta penetra em espessuras de 2 milímetros, e os raios gama passam até aos 30 centímetros. Os investigadores de Bordéus demonstraram que a determinação da contribuição do único raio gama, emitido pelo conjunto dos três elementos radioactivos presentes numa camada arqueológica, bastaria para conhecer a dose total anual de irradiações (alfa + beta + gama) específica de cada camada. Deve entender-se que esta dose total anual é igual ao produto da dose anual devida apenas ao único raio gama e de uma constância (em geral próxima de 4) própria de cada camada. Esta constância é calculada em função da sensibilidade às irradiações próprias de cada amostra a datar, o que se faz com bastante facilidade.

Relativamente à medição da irradiação total dos raios gama, ela faz-se em quinze minutos, introduzindo durante este curto espaço de tempo um gama-metro (um cilindro com 10 centímetros de comprimento) num buraco feito horizontalmente na camada arqueológica de onde provém o objecto a datar.

A gama-termoluminescência, que ainda se encontra em estado experimental, deveria assim evitar as medições extremamente longas e delicadas das irradiações próprias do terreno circundante onde se encontra a cerâmica a datar, e que para a termoluminescência clássica eram indispensáveis.

Depois de experimentada na estação arqueológica de Fond-Brûlé na Martinica, a gama-termoluminescência foi aplicada, a partir de 1980, numa jazida neolítica de Tassili (Sara argelino); e, de momento, está a ser utilizada nas estações arqueológicas de El-Kadada, no Sudão, na de Aiguillon (Lot-et-Garonne) e na de Tourtrès (Lot-et-Garonne), que são, respectivamente, das épocas neolítica, proto-histórica e galo-romana.

De acordo com os primeiros resultados, as datações obtidas por gama-termoluminescência para as olarias de Fond-Brûlé(de 60 a. C. a 85 d. C.) são coerentes com as datações efectuadas com carbono 14 em carvões do mesmo nível arqueológico. Assim, as datações por gama-termoluminescência inserem-se na zona intermédia de datas que foram determinadas pelo carbono 14, as quais se situam, com efeito, entre 280 a. C. e o ano 400 da nossa era. Mas as datações com carbono 14 são particularmente imprecisas na Martinica devido à influência de carbono fóssil originado pela actividade vulcânica do monte Pelée.

A gama-termoluminescência, como todos os outros actuais métodos fisicos de datação, não fornece uma data precisa, mas sim uma curva de datas. Segundo Schvoerer, a gama-termoluminescência deveria permitir estabelecer a data de fabrico de uma cerâmica em mais ou menos 7,5 por cento e com uma probabilidade de exactidão de 70 por cento.

Curiosamente, a cerâmica de Fond-Brûlé, que foi o ponto de partida da gama-termoluminescência, não é a ideal para a aplicação deste método, visto que contém feldspato (silicato de alumínio que contém sempre impurezas) e não quartzo (dióxido de silício). Ora, o sistema cristalino do feldspato é instável, o que provoca um aquecimento das luminescências parasitas que perturbam as medições destinadas à datação. Por estas razões, a cerâmica de Fond-Brûlé só foi datada com uma precisão de cerca de 10 ou 12 por cento.

No estado actual da investigação, a gama-termoluminescência aplica-se com uma grande precisão na datação das estruturas arqueológicas de grandes dimensões (paredes de fornos de oleiro ou de fundição de metal, acumulações de cerâmicas, muros de tijolos, fundos de lareiras pré-históricos, camadas de minerais de origem vulcânica) ou, como é o caso de Fond-Brûlé, com cerâmicas fabricadas no local e que possuem, portanto, a mesma com posição mineralógica das terras circundantes.
 
 






UM SELO DE CORREIO


 


Até há pouco tempo, a datação de um tecido através de carbono 14 tinha que ser feita utilizando um fragmento relativamente grande, o que em muitos casos, era impossível.

Mas agora tudo se passa de maneira muito diferente graças ao Tandétron, que pertence ao C.N.R.S. e ao Comissariado para a Energia Atómica e que é gerido por um grupo científico que reúne o Centro das Radioactividades Fracas de Gif-sur-Yvette e dois laboratórios da Universidade de Orsay. De facto, a sensibilidade desta máquina é tal que apenas um pedaço de tecido do tamanho de um selo de correio é suficiente para fazer datações utilizando carbono 14.

O carbono 14, isótopo radioactivo do carbono, cujo tempo de vida é de 5700 anos, apenas existe em quantidades ínfimas. Um carbono formado actualmente contém 1 bilião de átomos de carbono 12 para cada átomo de carbono 14. Um carbono formado há 40 000 anos contém 400 000 biliões de átomos de carbono 12 para um único átomo de carbono 14.

A grande sensibilidade do Tandétron permite à máquina contar os átomos de carbono 14 presentes não apenas numa minúscula quantidade de carbono, mas também num carbono com a idade de 40 000 anos. Anteriormente, as datações com carbono 14 não podiam fazer-se sobre matéria orgânica com mais de 30 000 anos.

O Tandétron é também utilizável para dosear outros corpos radioactivos (alumínio 26, berílio 10), igualmente presentes em quantidades ínfimas e, portanto, para datar sedimentos e gelos polares.
 
 

A microtextura dos solos fornece informações sobre os climas antigos. As grandes planícies do Middle West americano, às quais pertence uma parte do Texas, estão sujeitas a tempestades de poeira.

As partículas, na sua maioria siliciosas, cujo tamanho é frequentemente de 2 mícrons e nunca ultrapassa os 20 mícrons, são levantadas pelo vento e muitas delas voltam a cair não muito longe do ponto de partida, antes de serem apanhadas pela tempestade seguinte, passada a qual ficam depositadas um pouco mais longe, e assim sucessivamente. Este processo é frequente, ao ponto de ter dado a toda esta região o nome de Dust Bowl (tigela de poeira). É evidente que quanto mais seco foro clima, mais frequentes são as tempestades de poeira e mais importantes serão os volumes de poeira levantados e tornados a cair.

Quando a chuva cai sobre estes solos cobertos de poeiras, estas transformam-se em argila. Desta forma, a espessura das camadas de argila é função da intensidade e da frequência das tempestades de poeira. Assim, formaram-se em determinados períodos depósitos de argila e de areia (sendo os grãos de areia maiores de 50 mícrons a 2 milímetros —, nunca viajam até muito longe depois de terem sido levantados por ventos violentos) com vários metros de espessura.

O microscópio óptico e o microscópio electrónico são os melhores instrumentos para estudar os depósitos de argila, composta por partículas minúsculas. Curiosamente, os estudos efectuados neste domínio permitiram ao Dr. Vance Holliday, professor na Texas Agricultural and Mechanical University, trabalhar quer para o Departamento de Geografia, quer para o de Antropologia (nos Estados Unidos, a disciplina de Antropologia engloba tanto a antropologia física como a etnologia, a Pré-História e a arqueologia).

O exame microscópico das camadas de argila próximas da superfície proporciona, com efeito, uma percepção aproximada da história do clima ao longo dos últimos 15 000 anos. De 13 000 a 9000 a. C., ou seja, durante o final do último período glaciar, o clima do Texas era mais fresco e húmido do que actualmente. De 9000 a 4000 a. C., o clima foi aquecendo e tornou-se mais seco, se bem que de 4000 a 2000 a. C. o clima tenha sido muito mais quente e seco do que actualmente. A partir de 2000 a. C., alterou-se progressivamente até atingir as condições actuais.

Este conhecimento dos climas passados, aqui muito esquematizados, tem uma utilidade dupla. Por um lado, as flutuações climáticas ajudam consideravelmente os estudiosos da Pré-História a situar no seu quadro natural as diferentes civilizações pré-históricas índias, que desabrocharam nas grandes planícies há 12 000 anos antes da nossa era.

Por outro lado, esses estudos provaram que o processo dos ventos de poeira se repetiu ao longo de milénios. Pode daí concluir-se que a pradaria, que outrora cobria permanentemente todas as planícies, pelo menos teoricamente, podia desaparecer por momentos, provavelmente por ocasião de período de seca. Nessa altura, o solo ficaria então a descoberto e a poeira superficial levantava-se sob o efeito do vento. Esta reconstituição da história climatérica mostra, portanto, que o solo das planícies é muito vulnerável. Actualmente, dado que as culturas deixam o solo nú todos os anos entre os períodos vegetativos, há necessariamente que ter em conta esta fragilidade, se não se quer que um dos celeiros do mundo se torne desértico.

Com Marie-Agnés Courty, investigadora no C. N. R. S. (Instituto do Quaternário da Universidade de Bordéus-I), utiliza-se a técnica microscópica para colocar em evidência os solos antigos que foram cultivados, ou ocupados para diversas outras utilizações, de 2500 a 1700 a. C., no Noroeste da India. Com efeito, desenvolveu-se ali a extraordinária civilização dos Hindus, cujas estações arqueológicas urbanas principais são Harappa (Índia) e Moenjodaro (Paquistão).

A região de Harappa, onde trabalha Marie-Agnès Courty, está situada numa zona semiárida (as chuvas só caem, praticamente, durante a monção de Verão) onde os modos agrícolas, ainda arcaicos, não se modificaram desde há 4000 anos. A identificação dos vestígios das culturas do passado faz-se, por conseguinte, por comparação com as culturas actuais, que modificam a estrutura dos solos da mesma forma que as mais antigas.

São também identificadas, através das estruturas particulares do seu solo, as zonas de armazenamento de cereais, os currais, os pátios e as ruas. Os solos das antigas zonas de pastagem são reconhecidos graças à abundância de fitólitos. Estes constituem o esqueleto silicioso das gramíneas (são eles que cortam os dedos quando se arrancam determinadas ervas e apresentam a particularidade de não serem digeríveis). Com um comprimento que pode ir de 200 mícrons a vários milímetros, eles são expulsos nos excrementos. Mas cada espécie de animais herbívoros tem a sua maneira específica de fazer circular os fitólitos no seu aparelho digestivo e daí que a organização destas minúsculas partículas de sílica nos excrementos permita saber, por exemplo, se os animais que outrora estiveram em determinadas pastagens eram vacas ou carneiros.

Para os estudos microscópicos dos solos, Marie-Agnés Courty (à semelhança de Vance Holliday) emprega lâminas muito finas, retiradas de amostras endurecidas por impregnação de resina. Assim, a fina lâmina é uma verdadeira microfolha, na qual a identificação das microcamadas é idêntica à das diferentes camadas arqueológicas observáveis numa escavação moderna típica.
 
 
 
 

Antes de efectuar escavações, de analisar e de datar, o investigador deve sinalizar a nova estação arqueológica que vai estudar, E certo que existem estações arqueológicas visíveis a olho nu, mas existem ainda mais, e por vezes bastante grandes, escondidas no solo, Nestes casos, nada do que existe à superfície permite suspeitar da sua presença nem, de resto, da presença de numerosos vestígios dos períodos históricos. Nada, salvo as variações subtis e fugazes e os relevos ínfimos que são visíveis de avião, graças a um conjunto de circunstâncias particulares e apenas durante breves momentos.
 
A excepcional seca ocorrida no Inverno de 1975-1976 e na Primavera e no Verão de 1976 foi catastrófica para a agricultura. Mas ela foi benéfica num domínio, provavelmente o único: o da arqueologia aérea.

Esta técnica, que começou a ser utilizada a partir da Primeira Guerra Mundial desenvolveu-se em França há perto de vinte anos, graças ao impulso que lhe deu o Prof. Raymond Chevallier. Até 1976, esta técnica permitiu encontrar milhares de vestígios pré-históricos ou históricos. As condições climáticas muito pouco habituais, registadas no final de 1975 e durante os oito primeiros meses de 1976, permitiram descobrir centenas, talvez milhares, de novas estações arqueológicas, nomeadamente recintos neolíticos ou villae galo-romanas, recintos da Idade do Ferro ou teatros romanos, aldeias gaulesas ou estruturas agrárias.

Mesmo que tenha sido completamente nivelada durante séculos de cultivos e lavras, uma estrutura elaborada pelo homem deixa sempre vestígios no solo. Uma vala ou um simples buraco escavado para espetar um poste preenchem-se lentamente. A granulometria do preenchimento é delicada: em geral, a terra removida retém melhor a água e, num solo sem vegetação, é natural que as valas e os buracos se tornem reconhecíveis através do tom castanho-escuro da terra. No entanto, em terrenos de aluvião ou lodosos, as marcas podem apresentar tonalidades mais claras.

Os cereais são muito favoráveis à arqueologia aérea: na Primavera e no princípio do Verão crescem melhor nas zonas húmidas e, portanto, são um pouco mais altos; ficarão verdes um pouco mais cedo e começarão a amadurecer também um pouco mais cedo, embora por vezes isso possa ocorrer um pouco mais tarde.

Por outro lado, a dispersão na superfície da argila que faz parte da composição das paredes desaparecidas, feitas em barro amassado com palha ou adobe, favorece igualmente a retenção de água nos solos circundantes. Teremos então que detectar as manchas escuras, sem dúvida mais difusas, mas suficientemente nítidas para reconhecer a silhueta aproximada de uma quinta.

A presença de fundações de pedra, a pouca profundidade da superfície do solo, traduz-se, inversamente, por uma vegetação mirrada sobre os restos das paredes. Sendo a vegetação mais baixa, acabará geralmente por ser a primeira a definhar em período de seca. Os restos das fundações também poderão ser visíveis -- sob forma de manchas brancas sobre a terra nua -- após lavras profundas que trouxeram à superfície restos de pedras. Também se podem encontrar vestígios de construções antigas fortificações, por exemplo graças a um ligeiro desnivelamento que se manteve e que, apesar de ser praticamente invisível ao nível do solo, pode ser identificado, devido à sombra que forma com uma luz rasante, ao ser observado a partir do céu.

Finalmente, o Inverno permite, por vezes, descobertas interessantes. Assim, quando cai geada durante a noite, no momento mesmo em que a neblina matinal desaparece, as valas ficarão brancas com a geada durante algumas dezenas de minutos. Da mesma forma, quando a neve permanece durante muito tempo sobre uma terra húmida, acaba por desenhar, a branco, planos de estruturas tão precisos como se tivessem sido desenhados por arquitectos.

Toda a arqueologia aérea é feita com base em voos incessantemente repetidos. O reaparecimento de vestígios é, em geral, muito fugaz. E necessário estar no local certo no momento certo e aproveitar as condições muito particulares de luminosidade. As sombras produzidas por ténues diferenças de altura apenas podem ser vistas se o Sol estiver baixo no horizonte e quase de frente. Pelo contrário, as variações da cobertura vegetal, que por vezes são ínfimas, apreciam-se melhor se o Sol estiver por detrás do operador. De uma maneira geral, a luz do meio do dia não favorece a distinção de um contraste entre duas cores muito próximas uma da outra. Daí que, para este tipo de trabalho, seja indispensável ter muita experiência.

A excepcional seca de 1976 teve também o efeito de acentuar os contrastes das cores, por vezes de as fazer durar mais tempo, tendo igualmente colocado em evidência vestígios de humidade diferencial bastante raros. As pastagens turfosas dos terrenos pantanosos, por exemplo, foram transformadas numa espécie de palha amarelada: assim, foi possível ver, pela primeira vez, a presença de grandes conjuntos romanos (santuários, villae e, talvez, termas), graças à erva verde que curiosamente persistiu sobre os muros enterrados. Ainda na mesma região, ou seja, na Picardia, Roger Agache, que foi o pioneiro da arqueologia aérea em França, descobriu, em 1976, estruturas agrárias civis em torno das grandes villae galo-romanas, vestígios de quintas gaulesas anteriores das villas galo-romanas e mais ou menos encobertas por estas, e grandes conjuntos pertencentes, provavelmente, às Idades do Bronze e do Ferro, situados em redor da foz dos rios Authie e Canche.

Na região de Châteaudun, Daniel Jalmain encontrou uma aldeia galo-romana completa, com as suas ruas, o seu forum, a sua basílica e o seu ginásio. Além disso, foram feitas outras descobertas em Loir-et-Cher, em Yvelines, em Essone cem Eure-et-Loir, num total de 141 subestruturas (entre as quais 120 eram villae), 45 recintos proto-históricos, 7 santuários, 3 teatros, 1 grande quinta gaulesa e aldeias galo-romanas, tudo isto desconhecido até esse ano.

Sobre a orla do planalto calcário que dominava o antigo golfo de Pictons -- os actuais terrenos pantanosos da Vendeia e do Poitou --, Maurice Marsac encontrou, em 1976, 15 campos neolíticos (anteriormente apenas eram conhecidos 5), mais de 100 recintos circulares ou quadrados, que talvez sejam as habitações do final do Neolítico, da Idade do Bronze ou da Idade do Ferro, algumas estruturas completas de villae (com 60 a 70 metros de comprimento por 40 a 50 metros de largura), todas situadas em «locais agradáveis» que dominavam as praias da época. Pela primeira vez, foram vistas nesta região quintas gaulesas, com os seus recintos encaixados, análogas àquelas que foram assinaladas na Picardia e na bacia parisiense.

Ainda no Oeste, na Charente-Maritime e também em Charente e em Vienne, Jacques Dassié assinalou uma boa vintena de campos neolíticos (até entao apenas eram conhecidos cerca de dez), cujas entradas estavam defendidas por passagens em ziguezague com a forma de tenazes de caranguejo. Por outro lado, descobriu perto de Aulnay-de-Saitonge o primeiro campo militar romano de todo o Sudoeste, e nas proximidades de Surgères, o estado lamentável de um campo de luzerna revelou a silhueta de um anfiteatro e até a de umas escadas das vomitoria (as largas entradas). Finalmente, próximo de Naintré, apareceu uma aldeia completa (galo-romana?), com o seu quadriculado regular. No vale do Saône, René Goguey descobriu um grande complexo cultural que ocupava muitos hectares e que era composto por vários templos galo—romanos, entre os quais figurava um santuário poligonal e diversos outros edifícios, como lojas e abrigos destinados provavelmente aos "peregrinos".

Os exemplos de descobertas atrás mencionados, sem de forma alguma pretender fazer uma lista exaustiva, demonstraram que graças à arqueologia aérea se pôde reconstituir seis mil anos de história. Evidentemente, é necessário realizar escavações para datar as estações arqueológicas descobertas através de fotografias. A partir do céu, distinguem-se formas características de épocas bem definidas, mas o estudo dos fragmentos de cerâmica, dos utensílios de pedra talhada ou polida, das armas e objectos de metal, proporcionam precisões cronológicas insubstituíveis. Por outro lado, através do número de estações arqueológicas que revela, a arqueologia aérea permite fazer uma ideia de conjunto do passado de uma região, podendo inclusivamente servir de base a estudos estatísticos. Finalmente, esse tipo de estudo não destrói as estações arqueológicas, embora não seja também tão preciso como forçosamente o são as escavações.

As formas típicas mais antigas parecem ser as das grandes casas rectangulares do Neolítico Antigo ou Médio (de 3800 a 2600 a. C.), que só muito raramente são visíveis de avião. Em 1976, Michel Boureux assinalou 5 no vale de Aisne, 2 das quais em Cuiry-lès-Chaudardes. Estas casas de 40 metros de comprimento foram imediatamente sujeitas a escavações, efectuadas pela unidade de investigação arqueológica n.9 12 do C. N. R. 5., que já tinha trabalhado no mesmo local em l974 numa dezena de casas do mesmo tipo, embora mais pequenas.

Os sistemas de valas interrompidas, que nas fotografias desenham grandes traços descontínuos, pertencem ao Neolítico Médio (3000 a 2500 a. C.). Tais valas, que muitas vezes são duplas ou triplas, guarnecidas com uma paliçada interior, apresentavam uma forma oval irregular com 200 a 300 metros de diâmetro. A forma como eram utilizadas ainda está por descobrir. No interior da zona oval não se encontra praticamente nada. Em contrapartida, as valas contêm muitas cerâmicas e utensílios em sílex. De acordo com arqueólogos britânicos que encontraram no seu país numerosas valas interrompidas, estas poderiam ser recintos onde se realizavam mercados temporários periódicos.

Uma boa parte dos recintos circulares com 5 a 30 metros de diâmetro, frequentes em toda a metade norte da França, poderão ser atribuídos à Idade do Bronze (de 1500 a 800 a. C.). Simples, duplos ou triplos, estes recintos tinham uma função funerária e ritual. Na realidade, perto das valas, no interior ou no exterior dos círculos, encontram-se umas que guardaram as cinzas dos corpos incinerados. Esta forma circular manteve-se até à conquista romana e mesmo até depois dela.

Durante a segunda Idade do Ferro (de 500 a. C. até à conquista romana aparecem pequenos recintos quadrados (com 2 a 20 metros de lado) ou rectangulares (com 4 a 5 metros por l0 a 20 metros, e mesmo mais), também eles com funções rituais e funerárias. Mas, neste caso, as inumações são mais frequentes do que as incinerações. Datam também da mesma época recintos muito grandes (com 100 a 200 metros de lado), quase sempre simples e que poderiam ter sido as demarcações de campos ou currais para animais, e também as primeiras quintas identificáveis através do encaixe entre vários recintos. Tendo os Gauleses ignorado a arte da alvenaria, são muito raras as estruturas de casas: apenas são visíveis as marcas dos buracos onde se enterravam barrotes, ou as valas onde estavam dispostos os barrotes encaixados. Mas parece que niaque1a época já existiam grandes casas de quinta, de forma rectangular, as aedificia de César. E, excepcionalmente, algumas casas redondas com 25 a 30 metros de diâmetro.

Com os Romanos, aparecem acampamentos, vias, templos, termas e casas de campo com alicerces feitos com pedras. Mais de um milhar destas importantes villae foram descobertas por fotografia aérea no Norte da Picardia, região que Roger Agache sobrevoa há já quinze anos. Todas estas casas villas-quintas eram construídas segundo o mesmo princípio: um rectângulo com 200 a 400 metros de comprido, no qual uma pequena parte lateral é ocupada, em toda a sua extensão, por uma enorme «casa do senhor». O pátio interior estava dividido em duas partes desiguais: a pequena, em frente à «casa do senhor», devia ser o «jardim»; a grande, o pátio da quinta propriamente dito, em cuja parte lateral estaria uma outra casa importante, um pouco mais pequena do que a habitação principal, que provavelmente servia de residência ao administrador. O conjunto do pátio estava rodeado por diversos edifícios separados entre si (celeiros, cavalariças, estábulos, alojamento dos escravos?).

Todas estas villae eram construídas em pleno campo, a 1 ou 2 quilómetros de distância umas das outras. Contudo, elas não existiram necessariamente todas ao mesmo tempo, uma vez que esta forma de povoamento disperso se perpetuou durante cerca de quatro séculos até às grandes invasões. A descoberta destas villae transformou os conhecimentos até então existentes, pois pensava-se que durante o Alto Império não tinham existido os grandes domínios na metade norte da França. Com efeito, parece que desde o primeiro século da nossa era praticamente não existiram aldeias no campo galo-romano, nem sequer em torno dos complexos monumentais (teatros, templos, termas) que foram encontrados em Ribemont-sur-Ancre, onde Jean-Louis Cadoux se encontra a fazer investigações.

E evidente que os vestígios revelados pela fotografia aérea não se ficam pelo fim do período romano. Encontraram-se também numerosos vestígios medievais (fortificações, quintas de formas irregulares e já não rectangulares) e até vestígios da época actual, por exemplo, trincheiras da Primeira Guerra Mundial e buracos de obus da Segunda Guerra Mundial.
 
 

São cada vez mais numerosas as disciplinas científicas que podem ajudar os arqueólogos e os estudiosos da Pré—História. Nas estações arqueológicas, diante das escavações, são utilizados diversos métodos geofísicos que permitem identificar as zonas «interessantes». Desta forma, os resultados dessas disciplinas orientam o trabalho das equipas de escavação. "Existem circunstâncias em que vejo claramente a aliança possível e desejável da ciência e da arte e em que o químico e o físico podem sentar-se ao lado ao vosso lado e esclarecer—vos." Nenhum arqueólogo, nenhum especialista de história da arte contesta actualmente a utilidade das ciências e das técnicas, entendendo-se que esta intrusão das ciências exactas na arte não se aplica à estética, que apenas pertence ao domínio do espírito. Mas, na época, aquela afirmação foi realmente profética, pois foi pronunciada em 1865 por Pasteur, durante uma conferência feita na Escola de Belas-Artes!

No domínio da prospecção arqueológica, desde há mais de trinta anos que são correntemente utilizados diversos métodos geofísicos. Ao longo dos últimos decénios, esses métodos receberam o beneficio de todos os progressos da tecnologia, o que permitiu aperfeiçoar aparelhos cada vez mais sensíveis e compactos, bem como dispor de computadores cada vez mais poderosos, capazes de tratar as medições num quadro de modelos cada vez mais complexos.

Todos os métodos geofisicos se baseiam no facto de as estações arqueológicas ou os monumentos comportarem necessariamente heterogeneidades internas. Mas nenhum destes métodos é universal e, por isso, o utilizador deve escolher o método em função das características da zona a estudar e da finalidade da investigação.

Nem todos os solos e materiais possuem as mesmas propriedades de resistência eléctrica, ficando as diferenças a dever-se ao seu teor em água. Colocam-se em linha quatro eléctrodos para que entre eles passe a corrente eléctrica e verifica-se se a passagem se efectua com facilidade ou se existe alguma resistência. Assim, por exemplo, uma argila húmida não oferece grande resistência à passagem de corrente, mas já um granito compacto, e portanto seco, é muito mau condutor.

Caso seja possível, as medições realizam-se de acordo com um quadriculado regular, o que permite traçar um plano de resistência específica da zona estudada. As anomalias de forte resistência sugerem, geralmente, a presença de muros à superfície do solo, ao passo que as anomalias de fraca resistência fazem pensar na existência de valas cheias de um fino material, no meio de aluviões grosseiros. Porém, quaisquer que sejam as anomalias, elas apenas dizem respeito a vestígios cuja profundidade não excede a quarta parte da distância que separa os dois eléctrodos extremos, ou seja, de 3 a 10 metros na maior parte dos casos.

A espessura do subsolo pode ser reduzida em mais alguns decímetros quando a prospecção é feita através do método electromagnético, utilizado após a guerra para detectar minas. A maior parte dos aparelhos pode criar um campo electromagnético muito localizado e, simultaneamente, captar as perturbações deste campo provocadas pela heterogeneidade do subsolo próximo. O método electromagnético é bastante útil na detecção de metais, de construções e de vaias, particularmente quando a dureza do solo (calcetamento, asfalto) impede a colocação dos eléctrodos necessários para as medições de resistência específica.

Apesar de o método magnético ser o mais adequado para a detecção de metais ferrosos, fornos de cerâmica, fossas em habitats pré-históricos ou medievais e valas atulhadas, não pode ser utilizado em cidades, em virtude do campo magnético local ser muito perturbado pelas instalações eléctricas. No campo, pelo contrário, os aparelhos apresentam uma grande sensibilidade para captar as ínfimas perturbações do campo magnético, produzidas pelas diferenças de magnetização que caracterizam os diversos materiais (metais, cerâmicas, etc.) contendo determinados óxidos de ferro.

Em complemento destes três métodos, a que poderíamos chamar clássicos, e que foram desenvolvidos por Albert Hesse (C.N.R.S.) e Alain Tabbagh (Universidade Paris-IV) no Centro de Investigações Geofisicas de Garchy (Nièvre), apareceu mais recentemente a termografia como método auxiliar de prospecção arqueológica. Este novo método baseia-se na propriedade que certos materiais têm de aquecer ou arrefecer mais rapidamente do que aqueles que os rodeiam. Um radiómetro a bordo de um avião mede a irradiação emitida pelo solo em função da sua temperatura. Podemos, assim, conhecer a temperatura do solo com uma aproximação de algumas décimas de graus Célsius.

A termografia é particularmente adequada para a detecção de estruturas superficiais lineares (muros, valas, etc.), com a largura de pelo menos um metro, ou bem definidas à superfície por relevos que não ultrapassam por vezes alguns decímetros. Mas as medições devem ser feitas de manhã cedo, quero dizer, algumas horas depois de o Sol nascer. No que diz respeito à detecção dos relevos ténues, o Sol baixo no horizonte aquece mais a encosta iluminada e a diferença de temperatura sublinha os traçados.

Graças à termografia aérea, foi detectado em 8 de Março de l979,em Châtenay-sur-Seine (Seine-et-Marne), o quadriculado do parcelamento anterior ao século xix, bem como o traçado de caminhos há muito tempo abandonados.

Muito recentemente, foram utilizados no Egipto dois métodos de prospecção geofisicos com fins arqueológicos: a microgravimetria e o radar. A microgravimetria baseia-se no princípio da atracção universal, segundo o qual dois corpos se atraem em função do produto da sua massa e na razão inversa do quadrado da sua distância. Assim, a aceleração do peso varia segundo a massa de tudo quanto está em baixo e em cima do aparelho que a mede. Com efeito, a atracção recíproca age como se a massa de cada um dos corpos implicados estivesse totalmente concentrada no seu respectivo centro de gravidade.

Daí que a microgravimetria integre nas suas medições a soma de todas as massas que estão presentes abaixo de si até ao centro da Terra, bem como todas aquelas que estão situadas acima de si. Para conseguir descobrir uma ínfima anomalia gravimétrica produzida por uma falta ou um excesso de massa muito próximo do local das medições, é necessário, em primeiro lugar, fazer as indispensáveis correcções relacionadas como factores dinâmicos (as marés terrestres produzidas pela atracção da Lua e do Sol) e com os factores estáticos (altitude, anomalias regionais e locais permanentes da gravidade). Em seguida, é preciso comparar as medições aos valores introduzidos num modelo muito complexo, e que tenha em conta a heterogeneidade que se procura. Isto significa que a microgravimetria é um método de utilização delicada. Em França, a Companhia de Prospecção Geofísica Francesa e a Companhia Geral de Geofísica são as únicas a dominar esse método.

Por sua vez, o radar utiliza a velocidade de propagação das ondas electromagnéticas de alta frequência, velocidade essa que varia segundo a natureza dos meios atravessados. O aparelho emite ondas que a ele retornam após terem sido reflectidas em superfícies descontínuas existentes no interior da estrutura estudada, mas apenas nos quatro primeiros metros, devido à potência dos equipamentos actuais.

Todos estes métodos geofísicos, diferentes nos seus princípios, têm em comum o facto de não serem destrutivos e de servirem como guias muito úteis para os arqueólogos que os utilizam. Os fracassos em arqueologia raramente são divulgados. No entanto, todos os especialistas da prospecção geofísica conhecem as desventuras por que passou uma equipa norte-americana em El-Ful (na Cisjordânia ocupada por Israel): as anomalias magnéticas que faziam acreditar na existência de sepulturas eram, na verdade, originadas por irregularidades provocadas por espaços vazios à superfície do calcário subjacente. Menos decepcionante foi o «erro» de Susa (Irão): a equipa de Garchy pensava ter encontrado um capitel aqueménida, mas aquilo que descobriu foi um forno de cerâmica elamita.
 
 
 
 

À prirneira vista, a astronomia não tem nenhuma relação com a Pré-história. Ela pode, no entanto, orientar os especialistas que procuram estações arqueológicas ainda desconhecidas e que querem compreender os modos de vida dos nossos longínquos antepassados. Os homens da época paleolítica foram muito depois ao escolher para habitat abrigos sob rochas ou as entradas de grutas (nunca habitavam no fundo das mesmas). Assim o demonstram os estudos levados a cabo desde 1974 por ,Jean-Marc Bouvier, professor assistente no Instituto do Quaternário (Universidade de Bordéus-I). Mesmo tendo em consideração que uma parte da energia solar é absorvida pela atmosfera, as paredes verticais recebem, com efeito, mais calorias por centímetro quadrado no Inverno do que no Verão. Esta vantagem era tanto mais apreciável quanto de há aproximadamente 2 milhões de anos a 9000 anos antes da nossa era se sucederam os períodos glaciares, mergulhando, assim, em climas frios regiões que actualmente são temperadas, como a França em geral e o Périgord em particular.

Em primeiro lugar, Marc Bouvier utilizou as condições astronómicas próprias do Paleolítico recente, e que foram calculadas por André Berger, responsável pelo Instituto de Astronomia e de Geofísica Georges-Lemaitre (Universidade Católica de Lovaina, Bélgica). E certo que a Terra gira em torno do Sol. Mas não de forma inalterável. A excentricidade da órbita terrestre varia segundo um ciclo de 100 000 anos e a obliquidade do equador sobre o plano da órbita terrestre (eclíptica) varia no decorrer de um ciclo de 41 000 anos. Por fim a precessão dos equinócios faz que a posição da Terra sobre a sua órbita no momento dos equinócios e solstícios efectue uma volta completa desta órbita numa média de 21 000 anos.

A variação anual de cada um destes três factores é mínima. Mas ela e importante no que respeita a períodos longos. Por outro lado, os três ciclos, cujas durações são bastante diferentes, têm efeitos cumulativos ou contraditórios de acordo com momentos específicos. Se forem acumuladas as diferenças de duração de semestres de Verão e de Inverno dos tempos actuais e de há 11200 anos, conclui-se que o nosso semestre de Verão é maior em quase dezasseis dias do que o semestre de Verão daquela época.

Actualmente, a Terra passa mais longe do Sol no solstício de Verão e, no entanto, o hemisfério norte está então no Verão, devido à inclinação do equador terrestre sobre o plano da eclíptica. Há 11 200 anos, por exemplo, a situação astronómica era inversa daquela que existe actualmente. Aquando do solstício de Verão, a Terra estava no ponto da sua órbita mais próximo do Sol, de forma que o Verão do hemisfério norte coincidia com a porção da órbita terrestre mais próxima do Sol. Como a Terra percorre mais depressa a sua órbita quando está mais próxima do Sol, o Verão é actualmente mais longo do que o Inverno, ao passo que outrora se passava o contrário.

Depois de feitas todas as contas, o nosso semestre de Verão é maior em quase dezasseis dias do que o semestre de Verão de há 11 200 anos. Em contrapartida, como o Sol estava então mais próximo, a energia recebida a 45° de latitude norte, durante as cerca de dezoito horas de sol do dia do solstício de Verão, era de 865 calorias por centímetro quadrado há 11 200 anos; actualmente, essa energia não ultrapassa as 778 calorias por centímetro quadrado.

O conhecimento dos factores astronómicos do passado permitiu a Marc Bouvier calcular a insolação potencial, nas diversas estações, das paredes verticais orientadas para sul e situadas no paralelo 45º de latitude norte (que atravessa a Dordonha).

No solstício de Inverno, o Sol nasce a sudeste e, quando está baixo no horizonte, a sua luz bate na parede vertical quase perpendicularmente durante todo o tempo em que brilha. No solstício de Verão, pelo contrário, o Sol nasce a nordeste, pelo que não ilumina as paredes orientadas para sul. As 7 horas e 40 minutos, passa a leste e a sua luz, paralela às paredes, não é eficaz. As 12 horas, o Sol ilumina em cheio as paredes, mas, como está alto no céu e cai muito obliquamente sobre as paredes verticais, é também pouco eficaz.

Atingimos, assim, aquilo que parece ser um paradoxo: tendo em consideração a sua absorção pela atmosfera, que é maior no Inverno, quando a energia solar chega mais obliquamente à superfície da Terra, a energia recebida por uma parede vertical orientada para sul é maior no Inverno do que no Verão: das 11 horas às 12 horas, ela é de 326 calorias por centímetro quadrado no dia do Solstício de Inverno, de 294 calorias por centímetro quadrado nos dias dos equinócios e de 159 calorias no dia do solstício de Verão. A variação sazonal do tempo de insolação potencial não chega sequer a cobrir a diferença; das 0 horas às 12 horas, a energia solar recebida (sempre sobre uma parede vertical) e acumulada é de 3788 calorias por centímetro quadrado no dia. O solsticio de Inverno, de 4145 calorias por centímetro quadrado nos dias dos equinócios, mas apenas de 1762 calorias por centímetro quadrado no dia do solstício de Verão.

Com base nestes dados, pode concluir-se que os homens pré-históricos escolheram, em geral, os seus habitats de forma a compensar eficazmente os rigores do clima. Depois de ter feito esta primeira constatação, Marc Bouvier quis saber se os nossos longínquos antepassados, que habitaram o vale de Vézère, escolheram judiciosamente os seus abrigos sob rochas e as suas entradas nas grutas. Bouvier fez uma maqueta em relevo, à escala de 1/10 000, da região em questão, onde eram conhecidas cento e cinquenta e três estações arqueológicas do Paleolítico (algumas delas foram ocupadas várias vezes em períodos diferentes A maqueta, com 2 m x 2 m, com todas as estações arqueológicas assinaladas. foi iluminada sobre o ângulo conveniente para reproduzir exactamente a insolação potencial previsível nos dois equinócios e nos dois solstícios, quer hora a hora quer continuamente, sendo cada «iluminação» observada visualmente e fotografada.

Este novo tipo de trabalho, que requer uma paciência de beneditino. Comparado com tudo o que até então fora escrito sobre as estações arqueológicas, permitiu traçar um primeiro retrato-robot das características mais atraentes que conduziram os homens do Paleolítico Médio (talvez entre 70 000 a 33 000 a. C.) e do Paleolítico Superior (de 33 000 a 9000 a. C.) a escolherem os seus habitats. E evidente que foram levadas em consideração tanto a topografia local, específica para cada período, e que fazia que determinado abrigo deixasse de existir ou ainda não existisse ou que não fosse acessível, como as variações de altitude dos cursos de água. E também evidente que estes factores atraentes são o resultado de tendências e não de uma divisão em grupos bem delimitados de escolhas exclusivas das estações arqueológicas de habitação.

A altitude acima do rio constitui o primeiro factor de atracção. E necessário estar num local suficientemente alto para ficar protegido das inundações. mas também suficientemente baixo para estar próximo da água. No conjunto, os homens de Neandertal (Paleolítico Médio) preferiam os lugares rodeados por terraços, e situados a cerca de trinta metros acima do rio, ao passo que os seus sucessores Homo sapiens sapiens, do Paleolítico Superior, foram descendo, aos poucos, para mais perto dos cursos de água.

O segundo factor de atracção é a orientação do local. A princípio, foram preferidos os que se encontravam virados para sul e, depois, para sudeste, mas em ambos os casos situados acima dos grandes vales. No entanto, no Paleolítico Superior, também se escolheram locais de habitação em pequenos vales estreitos. Neste caso, mesmo aqueles que a priori apresentavam orientação desfavorável foram habitados, já que a outra encosta podia servir de reflector e de corta-vento. Neste sentido, perguntamo-nos se os homens desta época saberiam proteger-se melhor do frio do que os seus predecessores ou se só ocupavam aqueles lugares durante o Verão. Ninguém o pode saber actualmente.

Por último, a escolha era também orientada pela dimensão dos abrigos, os quais não deviam ser demasiado grandes, para poderem reter o calor. O abrigo ideal tinha cerca de uma dezena de metros de comprimento. Devia também ser suficientemente fundo para estar fora do alcance da maior parte das chuvas. Os ventos encanados que sopravam ao longo da parede, e mesmo até ao fundo do abrigo, eram eficazmente cortados por tabiques (de pedras, de ramos, de peles?) perpendiculares à parede. De resto, foram descobertos vestígios de pequenos muros de pedra. Toda a parte dianteira do abrigo permanecia aberta, o que permitia que a luz e o calor chegassem à parede e ao acampamento, e que o fumo saísse para o exterior.

Estas três características de atracção permitiram descobrir dois novos habitats do Paleolítico Superior. Foi assinalada uma terceira estação arqueológica favorável para a habitação, mas o declive da rocha era tal que todos os aluviões ou eventuais depósitos arqueológicos deslizaram há muito tempo para o fundo do vale. Portanto, esta terceira estação arqueológica não trouxe a confirmação nem a infirmação do método. A descoberta de possíveis novas estações arqueológicas continua na mesma zona do vale de Vézère, entre Montignac e Le Bugue. Esta investigação constitui o tema da tese do terceiro ciclo de Nathalie Mémoire.
 

Fonte:

Yvonne Rebeyrol,

Lucy: Crónicas da pré-História,

Mem Martins, Publ. Europa-América,

1992, pp. 27-45
 


 
 
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