Fumos do império

J. B. Mota Amaral

A revisitação do discurso político e mediático do período da transferência de poderes sobre Macau permite verificar como a retórica imperial ainda é forte entre nós. No subconsciente colectivo, as marcas dos tempos áureos da expansão portuguesa permanecem como uma recordação que não se esvai. E até parece que a nossa tão característica saudade se reporta também, no seu princípio originário, à glória perdida da era em que a bandeira das quinas drapejava nas sete partidas do mundo. A nostalgia do fim do império sentiu-se muito nesses dias crepusculares, em que também terminava o ano e ainda, ao menos simbolicamente, o século e o milénio. Dir-se-ia que Portugal, tal como os amputados, sofre dores no membro que já não tem... Lá no fundo, talvez essa atitude mental ajude a explicar o entusiasmo do Verão passado acerca de Timor Lorosae e o paternalismo, mais ou menos mitigado, com que é acompanhada a evolução dos novos países de língua oficial portuguesa.

Poucas são as vozes que hoje assumem, com toda a sua coerência interna, um anticolonialismo puro e duro. As injustiças da dominação colonial, que foram muitas e vergonhosas, de entre todas avultando o repugnante tráfico negreiro, surgem esbatidas face à hecatombe social e humanitária, que arrasou algumas das nossas antigas colónias. Perante tanta desgraça, que não vale a pena descrever, nem sequer enumerar, é natural pensar-se que no tempo dos portugueses as coisas estavam melhor. E assim era, objectivamente, sob certos aspectos, embora tal não infirme as razões da aspiração desses povos à sua libertação e independência nacional.

A idiossincrasia portuguesa inclui o apelo da lonjura, a vocação de partir, a capacidade de adaptação a novas terras e costumes, o jeito de relacionar-se com outras gentes. Os poetas, ao longo dos séculos, transfiguraram tudo isso, realçando os valores positivos e dando-lhes mesmo, sobretudo em Os Lusíadas, conotação empolgante.

Não se pode nem se deve rasgar capítulos inteiros da História de Portugal, nem renegar o seu impacte na cultura que identifica o nosso povo. Um dos erros extremistas do processo revolucionário posterior ao 25 de Abril foi acalentar tal pretensão. A tentativa de impor novos quadros referenciais, ensaiada, naturalmente, a partir do sistema educativo, degenerou, como seria de esperar, num fracasso rotundo. Mas teve, ainda assim, eficácia suficiente para abalar alicerces fundamentais e deixar em tantos jovens uma sensação estranha de vazio.

Repor o culto da história, da cultura e dos valores nacionais é importante tarefa do Estado democrático. E não implica, de modo algum, o retorno aos estereótipos do nacionalismo míope e do imperialismo colonialista da era salazariana.

Aliás, a derrocada do império, nos termos em que se deu, está indissociavelmente ligada, como o efeito à sua causa, à errada política colonial do regime autoritário. A vã cobiça de mandar travou a educação das populações e a formação de elites nativas; a mesquinhez financeira adiou, quase até aos dias do fim, qualquer esforço significativo de implantação de infra-estruturas para o desenvolvimento; o isolacionismo autista enterrou a cabeça na areia, para fingir ignorar os ventos históricos da emancipação dos povos colonizados.

Em contraponto, as democracias europeias deslindavam, mais ou menos habilmente, os seus problemas de descolonização. Em geral, pode-se dizer que a arrancada do processo não se fez de muito boa vontade. A França só se convenceu depois de perder a guerra da Indochina e de penar muito com a guerra da Argélia, envolvendo o fim do império colonial francês a queda da IV República. Por seu turno, o império britânico também começou a ser abalado pela insurreição pacifista da Índia, sob a liderança carismática de Gandhi. Mas tanto a Commonwealth, ainda agora vigente, como a comunidade francesa, introduzida pelo general De Gaulle na Constituição de 1958, posteriormente transformada num mais fluído espaço da francofonia, permitiram enquadrar a acessão à independência das antigas colónias de ambos os países e promover os novos Estados, com salvaguarda até de muitos e relevantes vínculos, de variada natureza, inclusivamente económica, política e até militar.

Daí que se conservem ainda hoje algumas relíquias desses antigos impérios europeus, dando à França e ao Reino Unido uma dimensão marítima deveras impressionante. No primeiro caso, talvez seja possível mesmo aplicar o dito de Filipe II, pois nunca se põe o Sol no território coberto, à roda do planeta, pelo pavilhão tricolor... No seu estatuto constitucional, esses confetti imperiais, quase todos ilhas, até nos mares mais remotos, testemunham as virtualidades das soluções democráticas, baseadas sobre a legítima expressão da vontade popular. E se é verdade que não faltam, aqui e ali, surtos emancipalistas, o status em vigor dispõe de uma confortável base de apoio, com ressonância internacional, tendo até, em muitos casos, o selo da integração política, sem prejuízo de elementos diferenciadores, e, como remate, a plena comunhão de cidadania.

Compreende-se assim que haja, também entre nós, quem sonhe com soluções parecidas, tendo em mira sobretudo Estados com características insulares, alongando-se pelo Atlântico abaixo e depois, cortando o Índico, até Timor... São diversíssimos os motivos que impulsionam esses propósitos, alguns decerto muito bem-intencionados. Em tempos, um antigo presidente da República de Cabo Verde foi citado em termos tais que induziram a impressão de haver eco para tais sonhos nos próprios jovens países africanos. A História, porém, não volta para trás e oxalá o actual e crescente envolvimento português em Timor não venha a dar aos mais afoitos dessa corrente algumas pesadas lições.

Courtesy: Diário de Notícias,Lisboa, 23 Jan. 2000


 
Para que serve a História?