Teoria da Interpretação

 




Fonte: Paul Ricoeur, Teoria da Interpretação, Lisboa, Ed.70, 1976, pp. 37-56.
 
 

Na medida em que a hermenêutica é interpretação orientada para textos e na medida em que os textos são, entre outras coisas, exemplos da linguagem escrita, nenhuma teoria da interpretação é possível que não se prenda com o problema da escrita. O objectivo deste ensaio é, por conseguinte, duplo. Quero, primeiro, mostrar que a transição da fala para a escrita tem as suas condições de possibilidade na teoria do discurso, em especial, na dialéctica de evento e significação aí considerada. O meu segundo objectivo é conectar o tipo de exteriorização intencional, que a escrita exibe, com um problema central da hermenêutica, o de distanciação. Este mesmo conceito de exterioridade que, na primeira parte do ensaio, será mais usado do que criticado tornar-se-á problemático na segunda parte. A crítica de Platão à escrita enquanto uma espécie de alienação fornecerá o ponto de viragem do tratamento descritivo para o tratamento crítico da exteriorização do discurso, própria da escrita.
 


Da Fala à Escrita


 


O que acontece na escrita é a plena manifestação de algo que está num estado virtual, algo de nascente e incoativo. na fala viva, a saber, a separação da significação relativamente ao evento. Mas esta separação não se dá de maneira tal que cancele a estrutura fundamental do discurso, discutida no primeiro ensaio. A autonomia semântica do texto, que agora aparece. é ainda governada pela dialéctica de evento e significação. Além disso, pode dizer-se que esta dialéctica se torna óbvia e explícita pela escrita. A escrita é a plena manifestação do discurso. Sustentar, como faz Jacques Derrida, "que a escrita tem uma raiz distinta da fala e que este fundamento se entendeu mal em virtude de termos prestado excessiva atenção à fala, à sua voz e ao seu logos, é passar por alto a radicação de ambos os modos da actualização do discurso na constituição dialéctica do mesmo discurso.

Proponho, em sua vez, que comecemos pelo esquema de comunicação descrito por Roman Jakobson no seu famoso artigo "Linguística e Poética". Com os seis principais "factores" o locutor, o ouvinte, o meio ou o canal, o código. a situação e a mensagem ele relaciona seis "funções" correlativas: as funções emotiva, conativa, fática, meta-linguística, referencial e poética. Ao tomar este esquema como ponto de partida, podemos inquirir que alterações, transformações ou deformações afectam a acção recíproca dos factos e das funções, quando o discurso se inscreve na escrita.

Mensagem e Meio: a Fixação

A mudança mais óbvia que tem lugar ao passar-se da fala para a escrita diz respeito à relação entre a mensagem e o seu meio ou canal. A primeira vista, concerne apenas a esta relação mas, num exame mais atento, a primeira alteração irradia em todas as direcções, afectando de um modo decisivo todos os factores e funções. A nossa tarefa será, por conseguinte, avançar desta mudança central para os seus vários efeitos periféricos.

Enquanto simples mudança na natureza do meio de comunicação o problema da escrita é idêntico ao da fixação do discurso em qualquer suporte exterior, seja a pedra, o papiro ou o papel, que é diferente da voz humana. Esta inscrição, que substitui a expressão vocal imediata, fisionómica ou gestual, é em si mesma uma realização cultural tremenda. O facto humano desaparece. Agora, as "marcas" materiais transportam a mensagem. Esta realização cultural concerne, em primeiro lugar, ao carácter de evento do discurso e, subsequentemente, também à significação. Porque o discurso só existe numa instância temporal e presente de discurso é que ele se pode desvanecer enquanto fala ou fixar-se como escrita. Porque o evento aparece e desaparece, existe um problema de fixação, de inscrição. O que queremos fixar é o discurso, não a linguagem como langue. E só por extensão que fixamos por inscrição o alfabeto, o léxico e a gramática, que, na sua totalidade, estão ao serviço daquilo que unicamente se pode fixar: o discurso. O sistema atemporal da língua não parece nem desaparece, simplesmente não acontece. Só o discurso se deve fixar, porque enquanto evento o discurso esvanece-se.

Mas, esta descrição não dialéctica do fenómeno da fixação não vai ao cerne do processo da inscrição. A escrita pode salvar a instância do discurso porque o que ela efectivamente fixa não é o evento da fala, mas o "dito" da fala, isto é, a exteriorização intencional constitutiva do par "evento-significação". O que escrevemos, o que inscrevemos é o noema do acto de falar, a significação do evento linguístico, e não o evento enquanto evento. A inscrição, apesar dos perigos que mais tarde evocaremos, seguindo Platão, na segunda parte deste ensaio, é a destinação do discurso. Só quando o sagen "dizer" se tornou Aus-sage, enunciação -- só então é que o discurso se realizou como discurso, na plena expressão da sua dialéctica nuclear.

Não é necessário considerar aqui longamente a noção do evento linguístico em termos da sua completa descrição como acto de fala, isto é, como acto locucionário, ilocucionário e perlocucionário. Como mostrei no primeiro ensaio, cada um destes actos abre caminho à dialéctica de evento e significação. Graças aos sinais gramaticais que a exprimem, de um modo exterior e público, a exteriorização intencional do discurso diz respeito a toda a hierarquia de actos linguísticos parciais. O acto locucionário exterioriza-se a si mesmo na frase, cuja estrutura interna pode identificar-se e reidentificar-se como sendo a mesma e que, por conseguinte, se pode inscrever e preservar. Na medida em que o acto ilocucionário se pode exteriorizar graças aos paradigmas e procedimentos gramaticais expressivos da sua "força", pode também inscrever-se. Mas, na medida em que no discurso falado a força ilocucionária depende da mímica e dos gestos e dos aspectos não articulados do discurso, a que chamamos prosódia, deve reconhecer-se que a força ilocucionária é menos inscritível do que o significado proposicional. Por fim, o acto perlocucionário é o aspecto do discurso que menos se pode inscrever. Caracteriza a linguagem falada mais do que o faz a linguagem escrita.

Em todos os casos é a exteriorização intencional, própria dos diferentes estratos do acto de fala que torna a inscrição na escrita possível, de maneira que, na análise final, a extensão da problemática da fixação é igual à da exteriorização intencional do acto linguístico, com a sua estrutura multidimensional.

Ora, a problemática da fixação e da inscrição esgotará o problema da escrita?

Por outras palavras, é a escrita apenas uma questão de mudança de meio onde a voz humana, a face e o gesto são substituídos por sinais materiais diferentes do próprio corpo do locutor?

Quando consideramos o âmbito das mudanças sociais e políticas que se podem relacionar com a invenção da escrita, podemos conjecturar que a escrita é muito mais do que uma mera fixação material. Precisamos apenas de evocar algumas dessas realizações tremendas. Com a possibilidade de transmitir ordens através de longas distâncias sem sérias distorções, pode conectar-se o nascimento do domínio político exercido por um Estado distante. Esta implicação política da escrita é apenas uma das suas consequências. Com a fixação das regras de cálculo, pode associar-se o nascimento das relações de mercado, por conseguinte, o nascimento da economia. Com a constituição dos arquivos, a história. Com a fixação do Direito enquanto padrão de decisões, independentes da opinião do juiz concreto, o nascimento da justiça e dos códigos jurídicos, etc. Um âmbito tão imenso de efeitos sugere que o discurso humano, ao fixar-se na escrita, não é simplesmente preservado de destruição, mas é profundamente afectado na sua função comunicativa.

Urna segunda consideração pode encorajar-nos a prosseguir neste novo pensamento. A escrita suscita um problema específico, já que não é apenas a fixação de um discurso oral prévio, a inscrição da linguagem falada, mas é pensamento humano directamente trazido à escrita sem o estádio intermediário da linguagem falada. A escrita toma o lugar da fala. Tem lugar uma espécie de atalho entre a significação do discurso e o meio material. Temos, pois, a ver com a literatura no sentido original da palavra. O destino do discurso é confiado à littera, não à vox.

A melhor maneira de medir a extensão desta substituição é olhar para o âmbito de mudanças que ocorrem entre as outras componentes do processo de comunicação.

Mensagem e I.ocutor

A primeira ligação a ser alterada é a da mensagem com o locutor. Tal mudança é, efectivamente, em si mesma uma das duas mudanças simétricas que afectam a situação interlocucionária como um todo. A relação entre mensagem e locutor num extremo da cadeia de comunicação e a relação entre a mensagem e o convite, no outro são profundamente transformadas quando a relação face a face é substituída pela relação mais complexa da leitura à escrita, como resultado da inscrição directa do discurso na littera. A situação dialógica foi destruída. .A relação escrita-leitura não é um caso particular da relação entre fala e audição.

Se considerarmos com maior pormenor estas mudanças, vemos que a referência do discurso ao seu locutor é afectada da seguinte maneira. No discurso, dissemos nós, a frase designa o seu locutor mediante diversos indicadores da subjectividade e personalidade. Mas, no discurso falado, a capacidade do discurso para se referir ao sujeito falante apresenta um carácter de imediatidade porque o locutor pertence àsituação de interlocução. Ele está aí, no sentido genuíno de estar aí, do Dasein. Por conseguinte, a intenção subjectiva do locutor e a significação do discurso sobrepõem-se um ao outro de tal modo que é a mesma coisa entender o que o locutor pretende dizer e o que o seu discurso significa. A ambiguidade do alemão meinen e do inglês to mean dá testemunho desta sobreposição na situação dialógica. Contudo, com o discurso escrito, a intenção do autor e o significado do texto deixam de coincidir. A dissociação da significação verbal do texto e da intenção mental do autor dá ao conceito de inscrição o seu significado decisivo, para além da mera fixação do discurso oral prévio. A inscrição torna-se sinónimo de autonomia semântica do texto, que resulta da desconexão da intenção mental do autor relativamente ao significado verbal do texto. Em relação ao que o autor quis dizer e ao que o texto significa. A carreira do texto subtrai-se ao horizonte finito vivido pelo seu autor. O que o texto significa interessa agora mais do que o autor quis dizer, quando o escreveu.

O conceito de autonomia semântica é de imensa importância para a hermenêutica. A exegese começa com ele, isto é, desdobra os seus procedimentos dentro da circunscrição de um conjunto de significações que destruíram a sua ancoragem na psicologia do autor. Mas a despsicologização da interpretação não implica que a noção de significado autoral tenhaperdido a sua significação. Aqui, mais uma vez, uma concepção não dialéctica da relação entre eventos e sentido tenderia a opor uma alternativa à outra. Por um lado, teríamos o que W. K. Wimsatt chama a falácia intencional, que sustenta a intenção do autor como o critério para qualquer interpretação válida do texto. E, por outro, o que eu chamaria, de um modo simétrico, a falácia do texto absoluto: a falácia da hipostasiação do texto como uma entidade sem autor. Se a falácia intencional passa por alto a autonomia semântica do texto, a falácia contrária esquece que num texto permanece um discurso dito por alguém, dito por alguém a mais alguém acerca de alguma coisa. É impossível eliminar de todo esta característica principal do discurso, sem reduzir os textos a objectos naturais, isto é, a coisas que não são feitas pelo homem, mas que, como calhaus, se encontram na areia.

A autonomia semântica do texto torna a relação do evento e significação mais complexa e, neste sentido, revela-a como uma relação dialéctica. O significado autoral torna-se justamente uma dimensão do texto na medida em que o autor não está disponível para ser interrogado. Quando o texto não responde, então tem um autor, e não um locutor. O significado autoral é a contrapartida dialéctica da significação verbal e tem de construir-se em termos de reciprocidade. Os conceitos de autor e de significado autoral suscitam um problema hermenêutico contemporâneo do de autonomia semântica.
 
 

Mensagem e Ouvinte
 
 

No lado oposto da cadeia de comunicação, a relação da mensagem textual ao leitor não é menos complexa do que em relação ao autor. Enquanto o discurso falado se dirige a alguém que é previamente determinado pela situação dialógica é dirigido a ti, a segunda pessoa —-, um texto escrito dirige-se a um leitor desconhecido e, potencialmente, a quem quer que saiba ler. Esta universalização do auditório é um dos efeitos mais notáveis da escrita e pode expressar-se em termos de um paradoxo. Porque o discurso está agora ligado a um suporte material, torna-se mais espiritual, no sentido de que é libertado da estreiteza da situação face a face.

Naturalmente, tal universalidade é só potencial. De facto, um livro dirige-se apenas a uma secção de público e alcança os seus leitores apropriados através de meios que, em si mesmos, estão submetidos a leis sociais de exclusão e admissão. Por outras palavras, a leitura é um fenómeno social e obedece a certos padrões e, por conseguinte, sofre de limitações específicas. No entanto, a proposição que diz que um texto se dirige potencialmente a quem quer que saiba ler deve reter-se como um limite em qualquer sociologia da leitura. Uma obra cria, pois, o seu público. Alarga assim o círculo da comunicação e inicia novos modos de comunicação. Nessa medida o reconhecimento da obra pela audiência por ela criada é um evento imprevisível.

Mais uma vez, a dialéctica da significação e acontecimento é exibida na sua plenitude pela escrita. O discurso é revelado como discurso pela dialéctica do endereço que é, simultaneamente, universal e contingente. Por um lado, é a autonomia semântica do texto que abre o âmbito de leitores potenciais e, por assim dizer, cria o auditório do texto. Por outro, é a resposta do auditório que torna o texto importante e, por conseguinte, significativo. Eis a razão por que os autores não se preocupam com os seus leitores e, não obstante o seu público presente, continuam a falar dos seus leitores como de uma comunidade secreta por vezes projectada num futuro nebuloso. Faz parte da significação de um texto estar aberto a um número indefinido de leitores e, por conseguinte, de interpretações. Esta oportunidade de múltiplas leituras é a contrapartida dialéctica da autonomia semântica do texto.

Segue-se que o problema da apropriação do sentido do texto se torna tão paradoxal como o da autoria. O direito do leitor e o direito do texto convergem numa importante luta, que gera a dinâmica total da interpretação. A hermenêutica começa onde o diálogo acaba.
 
 

Mensagem e Código

A relação entre mensagem e código tornou-se mais complexa com a escrita, de um modo um tanto indirecto. O que aqui tenho em mente diz respeito à função dos géneros literários na produção do discurso enquanto tal e tal modo de discurso, quer como poema, narrativa ou ensaio. Esta função concerne, sem dúvida nenhuma, à relação entre mensagem e código, visto que os géneros são expedientes generativos para produzir discurso como... Antes de serem expedientes classificatórios, usados pelos críticos literários para se orientarem na profusão das obras literárias, por conseguinte, antes de serem artefactos da crítica, são para o discurso o que a gramática generativa é para a gramaticalidade das frases individuais. Neste sentido, os códigos discursivos podem juntar-se aos códigos fonológico, lexical e sintáctico, que regulam as unidades do discurso, as frases. A questão agora é: em que medida é que os géneros literários são genuinamente códigos da escrita? Só de um modo indirecto mas, no entanto, decisivo.

Os géneros literários exibem algumas condições que teoricamente se poderiam descrever sem consideração pela escrita. A função destes expedientes generativos é produzir novas entidades de linguagem mais longas do que a frase, totalidades orgânicas irredutíveis à simples adição de frases. Um poema, uma narrativa ou um ensaio apoia-se em leis de composição que, em princípio, são indiferentes à oposição entre a fala e a escrita. Provêm da aplicação de formas dinâmicas a conjuntos de frases, para os quais a diferença entre a linguagem oral e escrita é inessencial. Em vez disso, a especificidade destas formas dinâmicas parece proceder de uma dicotomia diferente da que existe entre falar e ouvir, isto é, dá aplicação ao discurso de categorias tiradas de outro campo, o da prática e da obra. A linguagem é submetida às regras de uma espécie de artesanato, que nos permite falar de produção e de obras de arte e, por extensão, de obras do discurso. Poemas, narrativas e ensaios são essas obras de discurso. Os expedientes generativos que chamamos géneros literários são as regras técnicas que presidem à sua produção e o estilo de uma obra nada mais é do que a configuração individual de um produto ou obra singular. O autor aqui é não só o falante, mas também o fazedor da obra que é a sua obra.

Mas, se a dicotomia entre teoria e prática é irredutível ao par fala-escrita, a escrita desempenha um papel decisivo precisamente na aplicação das categorias de prática, de técnica e de obra ao discurso. Existe produção quando uma forma se aplica a alguma matéria de modo a configurá-la. Quando o discurso se transfere para o campo da produção é também tratado como uma matéria a ser moldada. E aqui que interfere a escrita. A inscrição como um suporte material, a autonomia semântica do texto enquanto respeita ao locutor e ao ouvinte e todos os traços relacionados da exterioridade característica da escrita ajudam a fazer da linguagem a matéria de um artesanato específico. Graças à escrita, as obras de linguagem tornam-se tão auto-suficientes como as esculturas. Não é por acaso que "literatura" designa o estatuto da linguagem como escrita littera e como encorporada em obras segundo géneros literários. Com a literatura, os problemas da inscrição e produção tendem a sobrepor-se. O mesmo se pode dizer a respeito do conceito de texto, que combina a condição de inscrição com a textura própria das obras geradas pelas regras produtivas da composição literária. Texto significa discurso como inscrito e trabalhado.

Tal é a afinidade específica que reina entre a escrita e os códigos específicos que geram as obras do discurso. Esta afinidade é tão íntima que poderíamos ser tentados a afirmar que até as expressões orais das composições poéticas ou narrativas se fundam em processos equivalentes à escrita. A memorização dos poemas épicos, de canções líricas, de parábolas e provérbios e a sua recitação ritual tendem a fixar e até a congelar a forma de obra de um modo tal que a memória aparece como um suporte de uma inscrição semelhante à que é fornecida pelas marcas externas. No sentido alargado de inscrição, a escrita e a produção das obras do discurso segundo as regras da composição literária tendem a coincidir, sem que os processos sejam idênticos.

Mensagem e Referência

Adiei a consideração das transformações mais complexas que ocorrem no funcionamento do discurso, que podem atribuir-se à escrita, para o fim desta investigação. Dizem respeito à função referencial do discurso no esquema da comunicação proposto por Roman Jakobson, e são os efeitos mais complexos por duas razões: por um lado, a distinção entre sentido e referência introduz no discurso uma dialéctica mais complexa do que a de evento e significação, a qual nos proporciona o modelo de exteriorização que torna a escrita possível. É, por assim dizer, uma dialéctica de segunda ordem, onde a própria significação, enquanto "sentido" imanente, se externaliza como referência transcendente, no sentido de que o pensamento se dirige mediante o sentido para diferentes espécies de entidades extralinguísticas como objectos, estados de coisas, coisas, factos, etc. Por outro lado, a maior parte das alterações da referência que se irão considerar não se devem atribuir à escrita como tal, mas à escrita enquanto mediação ordinária dos modos de discurso que constituem a literatura. Algumas destas alterações são até directamente produzidas pela estratégia peculiar de géneros literários específicos, como a poesia. A inscrição, pois, só indirectamente é responsável pelo novo destino da referência.

Todavia, apesar destas reservas, pode dizer-se o seguinte: no discurso falado, o critério último do alcance referencial do que dizemos é a possibilidade de mostrar a coisa referida como um membro da situação comum ao locutor e ao ouvinte. Esta situação rodeia o diálogo, e os seus pontos de referência podem indicar-se por um gesto ou pelo apontar de um dedo. Ou pode designar-se, de um modo ostensivo, pelo próprio discurso através da referência oblíqua, dos indicadores que incluem os demonstrativos, os advérbios de tempo e de lugar e os tempos do verbo. Por fim, podem descrever-se de um modo tão definido que uma e uma só coisa se pode identificar dentro do enquadramento comum da referência. Efectivamente, os indicadores ostensivos e, mais ainda, as descrições definidas, operam do mesmo modo no discurso oral e escrito, fornecem identificações singulares e as identificações singulares não precisam de se fundar na exibição, no sentido de uma indicação gestual da coisa referida. No entanto, as identificações singulares não precisam de se fundar na exibição, no sentido de uma indicação gestual da coisa referida. No entanto, as identificações singulares referem-se, em última análise, ao aqui e agora determinado pela situação interlocucionária. Não há nenhuma identificação que não relacione aquilo de que se fala a uma posição única na rede espácio-temporal e não existe nenhuma rede de lugares no tempo e no espaço sem uma referência final ao aqui e agora situacional. Neste último sentido, todas as referências da linguagem oral se baseiam em mostrações, que dependem da situação percebida como comum pelos membros do diálogo. Todas as referências na situação dialógica são, por conseguinte, situacionais.

É este fundamento da ciência na situação dialógica que é abalado pela escrita. Os indicadores ostensivos e as descrições definidas continuam a identificar entidades singulares, mas aparece um hiato entre a identificação e a mostração. A ausência de uma situação comum gerada pela distância espacial e temporal entre o escritor e o leitor; o cancelamento do aqui e agora absoluto pela substituição das marcas externas materiais para a voz, a face e o corpo do locutor como a origem absoluta de todos os lugares no espaço e no tempo; e a autonomia semântica do texto que o separa do presente do escritor e o abre a um âmbito indefinido de leitores potenciais num tempo indeterminado todas estas alterações da constituição temporal do discurso se reflectem em alterações paralelas do carácter ostensivo da referência.

Alguns textos reestruturam simplesmente para os seus leitores as condições da referência ostensiva. Cartas, relatos de viagens, descrições geográficas, diários, monografias históricas e, em geral, todas as descrições da realidade podem fornecer ao leitor o equivalente da referência ostensiva no modo de "como se" ("como se lá estivesses"), graças aos procedimentos ordinários da identificação singular. A pluralidade do aqui e do além do texto pode referir-se tacitamente ao aqui e além absoluto do leitor, graças à rede espácio-temporal única a que, em última análise, pertencem o escritor e o leitor e que ambos reconhecem.

A primeira extensão do alcance da referência para além dos limites estreitos da situação dialógica é de uma consequência tremenda. Graças a escrita, o homem e só o homem tem um mundo e não apenas uma situação. Esta extensão é mais um exemplo das implicações espirituais da substituição do suporte corporal do discurso oral pelas marcas materiais. Da mesma maneira que o texto liberta a sua significação da tutela da intenção mental, liberta também a sua referência dos limites da referência situacional. Para nós, o mundo é o conjunto das referências abertas pelos textos ou, pelo menos por agora, por textos descritivos. É nesse sentido que podemos falar do "mundo grego"; não é imaginar o que eram as situações para os que lá viviam, mas designar as referências não situacionais exibidas pelos relatos descritos da realidade.

Uma segunda extensão do alcance da referência é mais difícil de interpretar. Promana menos da escrita enquanto tal do que da estratégia aberta ou velada de certos modos de discurso. Por conseguinte, diz mais respeito à literatura do que à escrita, ou à escrita enquanto canal da literatura. Na construção do seu esquema de comunicação, Roman Jakobson refere a função poética que se deve entender num sentido mais amplo, do que o da mera poesia à ênfase da mensagem por si mesma, à custa da referência. Já antecipámos o eclipse da referência ao compararmos o discurso poético com uma obra escultural auto-suficiente. O hiato entre a referência situacional e a referência não-situacional, implicada na referência "como se" dos relatos descritivos, é agora intransponível. Isto pode ver-se nas narrativas ficcionais, isto é, nas narrativas que não são relatos descritivos, onde um tempo narrativo, expresso pelos tempos específicos dos verbos, é exibido pela e dentro da narrativa sem qualquer conexão com a rede única do espaço e do tempo, comum à descrição ostensiva e não ostensiva.

Quer isto dizer que o eclipse da referência no sentido ostensivo ou descritivo equivale à pura abolição de toda a referência? Não. O que quero vincar é que o discurso não pode deixar de ser acerca de alguma coisa. Ao fazer esta afirmação nego a ideologia dos textos absolutos. Só muito poucos textos e muito sofisticados, na linha da poesia de Mallarmé, satisfazem o ideal de um texto sem referência. Mas este tipo moderno de literatura surge como um caso limite e uma excepção. Não pode proporcionar a chave para todos os outros textos, mesmo textos poéticos no sentido de Jakobson, que incluem toda a literatura ficcional, quer seja lírica ou narrativa. De uma ou de outra maneira, os textos poéticos falam acerca do mundo, mas não de um modo descritivo. Como sugere o próprio Jakobson, a referência não é aqui abolida, mas dividida ou cindida. O apagamento da referência ostensiva e descritiva liberta um poder de referência para aspectos do nosso ser-no-mundo que não se podem dizer de um modo descritivo directo, mas só por alusão, graças aos valores referenciais das expressões metafóricas e, em geral, simbólicas.

Devemos, por conseguinte, alargar o nosso conceito do mundo, não só para admitir referências não ostensivas, porém, ainda descritivas, mas também referências não ostensivas e não descritivas, as da dicção poética. O termo "mundo" tem, pois, o significado que todos entendemos ao dizermos de um recém-nascido que veio ao mundo. Para mim, o mundo é o conjunto das referências desvendadas por todo o tipo de texto, descritivo ou poético, que li, compreendi e amei. E compreender um texto é interpolar entre os predicados da nossa situação todas as significações que constituem uma Welt a partir da nossa Umwelt. É este alargamento do nosso horizonte de existência que nos permite falar das referências descortinadas pelo texto ou do mundo aberto pelas exigências referenciais da maior parte dos textos.

Nesse sentido, Heidegger diz com razão, na sua análise do Verstehen em Ser e Tempo, que o que primeiro entendemos num discurso não é outra pessoa, mas um "projecto", isto é, o esboço de um novo modo de estar-no-mundo. Só a escrita admitidas as duas reservas feitas no início desta secção -~ ao libertar-se não só do seu autor e do seu auditório originário, mas da estreiteza da situação dialógica, revela este destino do discurso como projectando um mundo.
 
 



Uma Defesa da Escrita


 




A análise precedente alcançou o seu objectivo. Mostrou a plena manifestação da dialéctica nuclear de evento e significação, e da exteriorização intencional já em acção no discurso oral, embora de uma maneira incoativa. Mas, ao traze-la para primeiro plano, tornou problemático o que se poderia considerar garantido enquanto permanecesse implícito. Não é a exteriorização intencional, assente em marcas materiais, uma espécie de alienação?

Esta pergunta é tão radical que exige que assumamos, de um modo mais positivo, a condição de exterioridade não só como um acidente cultural, como uma condição contingente do discurso e do pensamento, mas também como uma condição necessária do processo hermenêutico. Só uma hermenêutica que use a distanciação de uma maneira produtiva pode resolver o paradoxo da exteriorização intencional do discurso.

Contra a Escrita

O ataque contra a escrita vem de longe. Está ligado a um certo modelo de conhecimento, ciência e sabedoria, usado por Platão para condenar a exterioridade como contrária à reminiscência genuína. Apresenta-a na forma de um mito, porque a filosofia tem aqui a ver com a emergência de uma instituição, de uma habilidade e de um poder, perdida no passado obscuro da cultura e ligada ao Egipto, o berço da sabedoria religiosa. O rei de Tebas recebe na sua cidade o deus Toth, que inventou os números, a geometria, a astronomia, os jogos de azar e os grammata ou caracteres escritos. Interrogado acerca dos poderes e possíveis benefícios da sua invenção, Toth afirma que o conhecimento dos carecteres escritos tornaria os egípcios mais sábios e mais capazes de preservar a memória das coisas. Não, replica o rei, as almas tornar-se-ão mais esquecidas porque puseram a sua confiança em marcas externas em vez de confiarem em si mesmas a partir de dentro. Este "remédio" (pharmacon) não é reminiscência, mas simples rememoração. Quanto à instrução, o que tal invenção traz não é a realidade, mas a semelhança dela; não é a sabedoria, mas a sua aparência.

O comentário de Sócrates não é menos interessante. A escrita é como a pintura que gera um ser não vivo que, por sua vez, permanece silencioso ao ser interrogado para responder. Igualmente os textos escritos, se alguém os interrogar de modo a deles aprender "significam apenas uma coisa, sempre a mesma". Além desta identidade estéril, os textos escritos são indiferentes aos seus endereçados. Vagueando por aqui e por além são indiferentes em relação àqueles que atingem. E se surge alguma disputa ou se são injustamente desprezados, precisam ainda da ajuda do seu pai. Por si mesmo, são incapazes de se salvar.

Segundo esta crítica áspera, enquanto apologia pela verdadeira reminiscência, o princípio e a alma do correcto e genuíno discurso, discurso acompanhado pela sabedoria (ou ciência), estão escritos na alma de quem conhece, o único que é capaz de se defender a si mesmo e guardar silêncio ou falar, conforme for exigido pela alma da pessoa endereçada.

O ataque platónico contra a escrita não é um exemplo isolado na história da nossa cultura. Rousseau e Bergson, por exemplo, por razões diferentes, associam os principais males que atormentam a civilização, à escrita. Para Rousseau, enquanto a linguagem apenas baseada na voz preservava a presença de cada um a si mesmo e aos outros, a linguagem era ainda expressão da paixão, era eloquência, e não ainda exegese. Com a escrita, começou a separação, a tirania e a desigualdade. A escrita ignora o seu endereçado, da mesma maneira que oculta o seu autor. Separa os homens, tal como a propriedade separa os seus proprietários. A tirania do léxico e da gramática é igual à das leis da troca, cristalizadas no dinheiro. Em vez da palavra de Deus, temos a regra dos letrados e o domínio do sacerdócio. O desmembramento da comunidade falante, a partilha do solo, o carácter analítico do pensamento e o reino do dogmatismo, nasceram todos com a escrita.

E, pois, um eco da reminiscência platónica que se pode ouvir ainda nesta apologia da voz como suporte da presença de cada um em si mesmo e como laço interno de uma comunidade sem distância.

Bergson impugna directamente o princípio da exterioridade, que atesta a infiltração do espaço na temporalidade do som e da sua continuidade. A palavra genuína emerge do "esforço intelectual" por cumprir uma intenção prévia do dizer, na busca da expressão apropriada. A palavra escrita, enquanto depósito dessa busca, cortou os seus laços com o sentimento, o esforço e o dinamismo do pensamento. A respiração, o canto e o ritmo acabam e a figura ocupa o seu lugar. Arrebata e fascina, dispersa e isola. Eis porque os autênticos criadores como Sócrates e Jesus não deixaram nenhum escrito e eis porque os místicos genuínos renunciam aos enunciados e ao pensamento articulado.

Mais uma vez, a interioridade do esforço fónico se contrapõe à exterioridade de sinais mortos, incapazes de se "salvar" a si mesmos.
 
 

Escrita e iconicidade
 
 

A réplica a tais críticas deve ser tão radical como o repto. Já não é possível fundar-se apenas numa descrição do legitimar o que até agora se teve simplesmente como garantido.

Uma observação feita de passagem no Fedro fornece-nos uma chave importante. A escrita é comparada à pintura, e das imagens destas diz-se que são mais fracas e menos reais do que os seres vivos. A questão aqui é se a teoria do eikon, considerada como uma simples sombra da realidade, não será o pressuposto de toda a crítica endereçada a qualquer mediação por sinais exteriores.

Poderia mostrar-se que a pintura não é a reduplicação umbrática da realidade, pois seria possível retornar ao problema da escrita como um capítulo numa teoria geral da iconicidade, tal como François Dagognet a elabora no seu livro Ecriture et iconographie.

Longe de produzir menos do que o original, a actividade pictórica pode caracterizar-se em termos de "aumento icónico" onde, por exemplo, a estratégia da pintura é reconstruir a realidade com base num alfabeto óptico limitado. Esta estratégia de contracção e miniaturização produz mais manuseando menos. Deste modo, o principal efeito da pintura é resistir à tendência entrópica da visão ordinária a imagem umbrática de Platão e aumentar o sentido do universo apreendendo-o na rede dos seus signos abreviados. Este efeito de saturação e culminação, dentro do pequeníssimo espaço de uma moldura e na superfície de uma tela bidimensional. em oposição à erosão óptica própria da visão ordinária, é o que é significado por aumento icónico. Enquanto na visão ordinária as qualidades tendem a neutralizar-se umas às outras, a esbater as suas arestas e a apagar os seus contrastes, a pintura, pelo menos desde a invenção da pintura a óleo pelos artistas holandeses, realça os contrastes, restitui às cores a sua ressonância e deixa aparecer a luminosidade, dentro da qual as coisas brilham. A história das técnicas da pintura ensina-nos que esses efeitos significativos se seguiram à invenção material de pigmentos tornados activos pela sua mistura com óleo. A selecção do que há pouco chamei o alfabeto óptico do pintor permitiu-me preservar as cores da diluição e do embaciamento e incorporar nos seus quadros a profunda refracção da luz debaixo do mero efeito reflexivo da luminosidade de superfície.

Porque o pintor podia dominar um novo material alfabético -- porque era um químico, um destilador, um envernizador e polidor -~- conseguiu escrever um novo texto da realidade. Pintar, para os mestres flamengos, não era nem a reprodução nem a produção do universo, mas a sua metamorfose.

Sob este aspecto, as técnicas da gravação e da gravura a água forte eram igualmente instrutivas. Enquanto a fotografia pelo menos, a fotografia não especializada -- apanha tudo mas nada retém, a magia da gravura, celebrada por Baudelaire, pode exibir o essencial. Isso deve-se a que a gravura, juntamente com a pintura, embora com outros meios, se baseia na invenção de um alfabeto, isto é, um conjunto de signos mínimos que consiste em pontos sincopados, pinceladas e manchas brancas, que realçam o traço e o rodeiam com a ausência.

O Impressionismo e também arte abstracta recorrem cada vez mais ousadamente à abolição das formas naturais em vista de um âmbito meramente construído de signos elementares, cujas formas combinatórias rivalizarão com a visão ordinária. A pintura, com a arte abstracta, aproxima-se da ciência ao desafiar as formas perceptivas, relacionando-as com estruturas não perceptivas. A apreensão gráfica do universo é também aqui servida por uma negação radical do imediato. A pintura parece apenas "produzir", e não mais "reproduzir". Mas interrompe a realidade ao nível dos seus elementos, como faz o deus do Timeu. O construtivismo éapenas um caso limítrofe de um processo de aumento, onde a aparente negação da realidade é a condição para a glorificação da essência não figurativa das coisas. A iconicidade significa, pois. a revelação de um real mais real do que a realidade ordinária.

A teoria da iconicidade enquanto aumento estético da realidade fornece-nos a chave para uma resposta decisiva à crítica que Platão faz à escrita. A iconicidade é a reescrita da realidade. A escrita, no sentido limitado da palavra, é um caso particular de iconicidade. A inscrição do discurso é a trascrição do mundo e a transcrição não é reduplicação, mas metamorfose.

O valor positivo da mediação material pelos signos escritos pode atribuir-se, tanto na escrita como na pintura, à invenção de sistemas de notação que apresentam propriedades analíticas: descontinuidade, número finito e poder combinatório. O triunfo do alfabeto fonético nas culturas ocidentais e a subordinação aparente da escrita à fala, que deriva da dependência das letras relativamente aos sons, não deve, porém, fazer-nos esquecer as outras possibilidades da inscrição, expressas pelos pictogramas, hieróglifos e, acima de tudo, pelos ideogramas, que representam uma inscrição directa dos significados do pensamento e que podem ler-se diferentemente em idiomas diferentes. Estes outros tipos de inscrição exibem um carácter universal da escrita, igualmente presente na escrita fonética, mas que a dependência em relação aos sons tenderia a dissimular: a estrutura espacial não só do suporte, mas também das próprias marcas, da sua forma, posição, distância mútua, ordem e disposição linear. A transferência do ouvir para o ler está fundamentalmente ligada à transferência das propriedades temporais da voz para as propriedades espaciais das marcas inscritas. Esta espacialização geral da linguagem é completa com o aparecimento da imprensa. A visualização da cultura começa com a privação do poder da voz na proximidade da presença mútua. Os textos impressos atingem o homem na solidão, longe das cerimónias que reúnem a comunidade. As relações abstractas, as telecomunicações no sentido próprio da palavra, conectam os membros espalhados de um público invisível.

Tais são os instrumentos materiais da iconicidade da escrita e da transcrição da realidade mediante a inscrição externa do discurso.
 
 

Inscrição e Distanciação Produtiva


 
 

Estamos agora preparados para um passo final. Levar--nos-á a descobrir no próprio processo da interpretação a justificação última da exteriorização do discurso.

O problema da escrita torna-se um problema hermenêutico quando se refere ao seu pólo complementar, que é a leitura. Surge então uma nova dialéctica, a da distanciação e apropriação. Por apropriação entendo a contrapartida da autonomia semântica, que separou o texto do seu escritor. Apropriar-se é fazer "seu" o que é "alheio". Porque existe uma necessidade geral de fazer nosso o que nos é estranho, há um problema geral de distanciação. A distância não é, pois, simplesmente um facto, um dado, o efectivo hiato espacial e temporal entre nós e o aparecimenio de tal e tal obra de arte ou de discurso. É um traço dialéctico, o princípio de uma luta entre a alteridade, que transforma toda a distância espacial e temporal em alienação cultural, e a ipseidade, pela qual toda a compreensão visa a extensão da autocompreensão. A distanciação não é um fenómeno quantitativo; é a contrapartida dinâmica da nossa necessidade, do nosso interesse e esforço em superar a alienação cultural. O escrever e o ler tomam lugar nesta luta cultural. A leitura é o pharmacon, o "remédio" pelo qual a significação do texto é "resgatada" do estranhamento da distanciação e posta numa nova proximidade, proximidade que suprime e preserva a distância cultural e inclui a alteridade na ipseidade.

Esta problemática geral está profundamente radicada na história do pensamento e na nossa situação ontológica.

Falando historicamente, o problema que estou a elaborar é a reformulação de um problema a que o Iluminismo do século XVIII deu a sua primeira formulação moderna por causa da filologia clássica: como tornar mais uma vez presente a cultura da antiguidade, não obstante a intervenção da distância cultural. O Romantismo alemão deu um giro dramático a este problema perguntando: como podemos nós tornar-nos contemporâneos dos génios passados? De um modo mais geral, como deve alguém utilizar as expressões de vida fixas pela escrita a fim de se transferir para uma vida psíquica estranha? O problema surgiu de novo após o colapso da pretensão hegeliana de superar o historicismo pela lógica do Espírito Absoluto. Se não existe nenhuma recapitulação dos legados culturais passados num todo omni-englobante, liberto da unilateralidade dos seus componentes parciais, então a historicidade da transmissão e da recepção de tais legados não se pode vencer. Por conseguinte, a dialéctica da distanciação e apropriação é a última palavra na ausência de um conhecimento absoluto.

Esta dialéctica pode, pois, expressar-se como a da tradição enquanto tal, entendida como a recepção de legados culturais historicamente transmitidos. Uma tradição não suscita problemas filosóficos enquanto nela vivemos e habitamos, na ingenuidade da primeira certeza. A tradição só se torna problemática quando a primeira ingenuidade se perde. Temos, então, de recuperar o seu significado através e para além da alienação. Doravante, a apropriação do passado prossegue ao longo de uma luta interminável com a distanciação. A interpretação, entendida filosoficamente, nada mais é do que uma tentativa de tornar produtivas a alienação e a distanciação.

Confrontada com o pano de fundo da dialéctica da distanciação e apropriação, a relação entre a escrita e a leitura acede ao seu sentido mais fundamental. Ao mesmo tempo, os processos dialécticos parciais, descritos separadamente na secção primeira deste ensaio, no seguimento do modelo de comunicação proposto por Jakobson, fazem sentido como um todo.


 
Textos didácticos